Sob as sombras.
Para quem gosta de história, o mês de agosto de 1954 há de ser lembrado como o mais dramático de nossa crônica política. Dentre os personagens que protagonizaram os acontecimentos que culminaram no suícidio de Getúlio, de certo o mais enigmático foi Gregório Fortunato, o anjo negro tido como o mentor do atentado à Carlos Lacerda, fato que desencadeou a crise. Do muito que já se escreveu a respeito,o misto de verdades fragmentadas e lendas enfeitadas sempre renegou a figura do guarda costas à sombra dos eventos. Sua morte suspeita, em pleno presídio, já nos anos 60, quando era grande a expectativa pelo suposto livro que escrevera na prisão, alimentou por décadas a curiosidade sobre a sua trajetória. Por tudo isso, o tema da obra do experiente José Louzeiro daria margem à uma narrativa jornalística instigante nos moldes do que Rubem Fonseca utilizou, embora em caráter ficcional, no seminal "Agosto", onde o Anjo aparece como verdadeira iminência parda no Palácio do Catete. Infelizmente nâo foi o caso de "O Anjo da Fidelidade". O livro, baseado em "extensas pesquisas" segundo seu autor, nâo passa de um amontoado de informações questionáveis e outras de domínio público, salpicadas de forma caótica em trechos inverossímeis. Louzeiro "transcreve" diálogos entre Gregório e Benjamin Vargas (chamado erradamente de Beijo, quando seu apelido era Bejo...)que eram verdadeiras análises sobre a Era Vargas. Difícil de levar a sério. Em vários momentos,o texto soa incompreensível pela descuido com as datas que compromete a sequência dos fatos apresentados. Para terminar, há a compilação de anexos absolutamente sem sentido intitulados "Fabulário da Insensatez" e "Intrigas e intrigantes". José Louzeiro nos apresenta uma obra que em termos literários vale muito pouco e em termos históricos, menos ainda. Gregório Fortunato permanece sob as sombras.

