Com quem está o dinheiro?
A pergunta de Vado: "quem pegou o dinheiro?", que inicia e condensa o conflito irresoluto da peça, poderia ser descrita de maneira mais geral como: "Com quem está o dinheiro"? Essa visão mais geral, pode ser aplicada a três peças que são às três que li e conheço; mas talvez caiba a todas de Plínio Marcos: Navalha na Carne, Quando as máquinas param e Dois perdidos numa noite suja. Das três unidades teatrais descritas por Aristóteles, gostaria de me concentrar em uma delas: o espaço. O espaço pode ser entendido tanto no sentido cênico, literário, como também geográfico, em sentido metafórico. Um hotel-espelunca é o espaço de Navalha na Carne e Dois perdidos numa noite suja, enquanto uma casa-espelunca é espaço de Quando as máquinas param. Esse lugar ocupado por estes pobres personagens pode ser exemplificado pela descrição do cenário de Navalha na Carne, peça esta, que pretendo me ater em mais detalhes: "Um sórdido quarto de hotel de quinta classe. Um guarda-roupa bem velho, com espelho de corpo inteiro, uma cama de casal, um criado-mudo, uma cadeira velha, são os móveis do quarto". O advérbio "bem", que intensifica o adjetivo "velho", não apenas ilustra esse hotel de "quinta classe" (uma expressão que já encerra uma hiperbolia), mas um dos motes das discussões entre o cafetão e a prostituta. O espelho de corpo inteiro permite que eles enxerguem aquilo que não ousariam enxergar: a si próprios. Esse espelho carrega uma metáfora também aplicável às três peças: se evita olhar-se no espelho, não se reconhece a condição social, não há complacência, simpatia, caridade, apoio. Todos os personagens, seja a tríade Vado, Neusa Sueli, Veludo (Navalha na Carne); e as duplas Zé e Nina (Quando as maquinas param); Paco e Tonho (Dois perdidos numa noite suja) estão excluídos socialmente. Quem sugere esse caráter de isolamento, não apenas geográfico, espacial (em sentido cênico e literário), mas metafórico das condições sociais, é o professor Luís Bueno. Eles estão apartados da sociedade e, ao invés de se ajudarem, se matam por dentro, se violentam uns aos outros. A brutalidade de Plínio Marcos vem menos da ação-encenação, dos diálogos (sim, pesados), do que da inerente e inescapável condição de seus personagens. Se em Quando as máquinas param Nina nutre uma fé no amanhã (uma esperança), idealiza algo melhor, todos eles, incluído Zé, seu marido, estão esgarçados; a dureza é tanto, que, em Dois perdidos, Tonho simbolize essa possibilidade futura (algum resquício de esperança) em um objeto ordinário, um sapato, como se fosse solucionar seus problemas... Ainda que aja violência verbal no decorrer de toda a peça de Quando as máquinas param, o acúmulo da relação conflito-resolução (ao final dos quadros), do apaziguamento constante, intensifica a violência do final da peça: a ação de Zé não é apenas violenta do ponto de vista físico, social, jurídico, etc. É violento no sentido simbólico: ele, como diz Nina, está desistindo; e não por ser covarde como ela o acusa, não pelo moralismo que o fez recusar ajudar da sogra, mas por saber da inescapabilidade de sua condição social. As crianças lá fora com quem jogava bola, aqueles sons fora de cena que invadem a diegese da primeira cena, não tinham futuro, como ter um filho poderia ajudá-los? Quando Neusa Sueli questiona a Vado, "Puxa, será que sou gente?", e depois muda a pergunta para o plural (incluindo os dois personagens), Vado tende a concordar, e isso se aplica à todo esse rol de personagens. Sim, ela está "velha", não, está "cansada" (como se defende), se olhar no espelho é doloroso, Vado sabe disso, por isso a obriga. E todos eles não estão? Cansados e sem saída? Neusa Sueli apanha algumas vezes na curta ação de um ato, assim como Veludo; a violência verbal ocupa quase a totalidade da peça, todos os personagens se acusam, se xingam, acuam uns aos outros, tal como em Dois perdidos numa noite suja. Todavia, o acúmulo não leva a um ato final trágico nesta primeira peça. A Navalha não chega a tocar a carne, como o brutal assassinato de Paco por Tonho, ou o espancamento de Nina por Zé, mas a solidão de Neusa Sueli, na saída de Tonho, denota essa inescapável solidão social: a violência, uma hora ou outra, retornará e irá triunfar.


