Comecei o livro empolgado, achando que ele ia tratar da religiosidade a partir de uma perspectiva da teoria literária, gerando um novo tipo de abordagem sobre a experiência religiosa. Achei que ia ser muito legal e enriquecedor; no começo, por exemplo, ele começa postulando que real é aquilo em que se acredita - é o tipo de coisa que não diz nada, mas diz o suficiente, porque não se quis ali empreender uma investigação filosófica sobre a natureza do Real com R maiúsculo, e sim fazer a breve observação de que para todos os efeitos sociais a crença, a experiência da linguagem, etc molda o sentido do real. Até faz uma crítica ao marxismo, afirmando como é impossível analisar o sentido da religiosidade a partir de suas manifestações institucionais. Discordo em parte, mas acho que tirar isso de foco abre (abriria) caminho para uma análise rica, então achei bom!
Contudo, nas próximas páginas encontrei decepção atrás de decepção. "Chamarei de religiosidade nossa capacidade para captar a dimensão sacra do mundo", dimensão essa que ele não define nem justifica, apenas _pressupõe_ - e ainda pretende analisar a capacidade de "captá-la"? Que se quer dizer com isso? Uma coisa é afirmar que a nossa cosmologia engendra uma dimensão sacra à nossa vida, e verificar como podemos chamar de religiosidade nossa interação com essa dimensão. Outra coisa muito diversa é vir dizer depois que existem pessoas "religiosamente surdas", que vivem "em mundos rasos e chatos (porque em tese inteiramente explicáveis)". Rasa e risível é essa visão. Diz, por exemplo, que a dimensão "sacra" da vida é "o significado que o mundo e nossa vida dentro dele têm". É sério mesmo, isso? Isso é monopólio do sentir e pensar religioso?
Suas discussões sobre "inautenticidade" são igualmente toscas e opacas. Fala besteiras vergonhosas sobre coisas que, aparentemente (pra falar umas coisas dessas) não conhece ("já que os elementos da matéria se revelam como sendo mais símbolos de pensamento que outra coisa (nêutrons, mésons etc) [...] há algo de errado na física como método do conhecimento" - Hã?!), parece desconhecer completamente a existência de coisas como processos históricos de transformação (uma vez dentro da dicotomia descartiana, impossível se livrar dela!) e ainda diz que as culturas primitivas são pré-lógicas.
Diz que vivemos necessariamente a negar a morte pois se a aceitássemos teríamos que só esperar ela acontecer, afinal de contas não faz diferença morrer hoje, amanhã ou depois - mas por acaso a negação é a relação que estabelece também com a fome, a escovação de dentes, a higiene dos banhos ou o lavar de louças? Aliás, como explicar que só o religioso possui a dimensão do sacro no sentido de um significado que nossa vida tem dentro do mundo se, para muitos e muitos ateus e agnósticos dentro de um escopo filosófico, esse valor é precisamente sentido como nossa contribuição para a felicidade e o bem-estar alheio? --- Enfim, um livro fajuta que faz repensar o momento da apresentação, em que Mario Ramiro diz que ele "afrontava" certos poderes estabelecidos ao terminar livros e ensaios sem notas de rodapé. Acho que ele simplesmente não teria muito que colocar nelas.