Achado em um sebo, com a capa levemente desgastada e páginas amareladas, chegou até mim o registro de algumas das últimas conversas da estrela de cinema Marlene Dietrich. Ouvi seu nome pela primeira vez em uma música de Rita Lee, da qual gostei tanto que tocou em looping por horas (posteriormente virou dias). Meu interesse pela mulher citada só crescia e decidi conhecê-la melhor. Após algumas leituras sobre a figura emblemática, incluindo sua autobiografia, finalmente dei chance para a edição de "Desejo-lhe amor", que me encarava na estante. Eu, que tenho olhado a vida com pouca empolgação, me reencontrei com a maravilhosa sensação de ser abraçada por palavras em um papel. A forma como Eryk Hanut escolheu narrar sentimentos e acontecimentos me tocou e trouxe um conforto que há muito tempo não sentia. Quando li a última página, fechei o livro e passei minutos o encarando. A frase "graças a você sei que se pode sobreviver" ecoa em minha mente desde então. Meu deslumbramento é ligado à forma humana como Hanut a descreve e como aquele amigo que Dietrich fez já em idade avançada foi importante em seus últimos anos de vida. Quem testemunha sua vida quando todos se vão? Quem fica para ouvir seus lamentos ou risadas? Aqui ela não é retratada dentro da caixinha de "lendária estrela de Hollywood", não. Pelas palavras de Eryk, ela é traduzida simplesmente como Marlene em sua essência. Uma mulher com história, com gostos, com raivas, tristezas, orgulhos e amores. O tempo todo, me senti ligada a ela e aos conselhos para Eryk que tomei para mim mesma. Mesmo em ligação ou por recados escritos em cartões, Dietrich transbordava força. Força de quem enfrenta a vida de cabeça erguida, ainda que a real vontade seja de afundar-se em um buraco. Era excêntrica, decidida, corajosa e talentosa. Me pergunto se, de onde está, sabe que inspirou gerações, criou tendências e é referência no que fazia. Essa alemã, que ficou conhecida por um trabalho inovador e competente, corroborou a minha hipótese de que os livros sabem o momento certo de chegarem na sua vida e serem lidos. Nós testemunhamos, Marlene. Nós lembramos e vivemos.