Único livro autointitulado biográfico sobre o personagem Paracelso, médico suíço do período renascentista (1493-1541), publicado em português. É também um dos poucos, talvez o único, que tenta ser imparcial com essa figura médica lendária e tenta explicar e analisar sua trajetória de vida relativa às crenças e vivências do período medieval. Talvez, por possuir este objetivo, peque em relação à descrição de suas contribuições.
Paracelso, pseudônimo de Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, é uma figura histórica polêmica, assim como o foi no período em que viveu. Até hoje, ainda se discute se sua escrita prolífica impactou realmente a ciência ou apenas o ocultismo, o que o autor também não deixa claro em seu texto.
O cirurgião e o inquisidor só diferiam por sua motivação: fora isso, seus conjuntos de facas, serras e pinças para cortar, perfurar, queimar e amputar em muito se pareciam. Pag 45 Cap. 4: O bastão e a Cobra
As polêmicas em torno do seu nome são inúmeras, pois, para começar, Paracelso se posicionava contra o estereótipo médico da época:
1. Não se vestia com sedas e pompas
2. Defendia que o médico deveria sempre viajar para aprender com o povo e não com o conhecimento fechado das faculdades
3. Acreditava no empirismo para evolução dos tratamentos médicos
4. Produzia suas próprias poções e elixires, indo contra a relação entre médicos e boticários
Paracelso tem a convicção de que os médicos não são apenas tolos equivocados mas enganadores deliberados que sabem que a sua medicina não tem utilidade, mas persistem com ela, pois lhe traz lucro.
Pag. 156. Cap. 9: Elixir e quintessência
5. Falava o que pensava, apresentando pouco tato político e social
6. Atuava também com procedimentos cirúrgicos, sujando as mãos, algo impensável numa época em que havia distinção entre médicos e cirurgiões-dentistas
7. Acreditava que as respostas estavam na natureza, nas estrelas e no universo e que, o bom médico precisava estudar alquimia, astronomia e astrologia para entender as doenças
Talvez com base neste último, ainda hoje Paracelso seja tão ligado ao mundo do Ocultismo, fato que, lá atrás, também serviu para desacreditá-lo perante seus pares. Ele ainda desprezava o ensino tradicional e a argumentação clássica. Preferia a linguagem do povo, falava em alemão ao invés do latim (embora soubesse os dois idiomas), mas sempre possuía dificuldade quando em debates com outros médicos, exatamente por essa dificuldade com o ensino regular catedrático.
Essa ideia de que a matéria ganha existência através de um tipo de revelação alquímica é, fundamentalmente, não cientifica, mas teológica. (...) Para Paracelso, o Gênesis era um conto de alquimia (...). Pg 243. Cap. 14: Além das maravilhas
Posto isso, o livro tem seus méritos em explicar, a cada curva da vida de Paracelso, a relação entre o seu posicionamento com o pensamento da época. Depreende-se que enquanto as crenças revolucionárias e a língua ferina o afastavam dos catedráticos e médicos ortodoxos, sua eficácia em resolver problemas, seus preços e linguagem mais acessível o aproximavam do povo. Ganhava fama em cada problema de saúde que resolvia e em seus discursos que buscavam relacionar a cura à natureza e às conjunções (alinhamento de estrelas e planetas). Numa época em que a astrologia e a astronomia ainda se confundiam, Paracelso oferecia mais que a cura palpável mas também um efeito placebo, talvez, ao inserir o ocultismo em suas curas.
Mas a grande atração da astrologia era seu poder explicador. A explosão de interesse pelas artes ocultas (...) estava relacionada aos medos e dificuldades da época (...). O único antídoto para o desespero era a ilusão de controle, e isso a astrologia providenciava. Pag 269. Cap. 15 Estrela e ascendente
Retrata bem, como livro histórico-científico, como a revolução de Lutero e dos anabatistas em meio à semente do pensamento renascentista, moldava em parte, as atuações de Paracelso. Em outros momentos, ainda que fugazes, traz dados contraditórios, pois o mesmo P. que contradiz Lutero age e fala de forma bem parecida, sendo ambos muito extremistas e de pouco cuidado com o modo como suas palavras impactavam os ouvintes.
Lutero estava preparado para encorajar as reações extremadas dos príncipes, e suas palavras chocavam até mesmo aqueles que eram convocados para executar suas decisões: (...) Portanto, a qualquer um deve ser permitido castigar, assassinar, esfaquear, abertamente ou não, lembrando que nada pode ser mais venenoso, diabólico ou ameaçador do que um rebelde. Pg 127. Cap 7 Revolução sob o signo do Sapato
Como livro biográfico, o autor peca repetidamente. Philip Ball é um escritor de ciência e não biografista, o que se reflete em sua escrita que não flui e parece se posicionar em cima do muro entre descrever a trajetória do médico e explicar a época renascentista. Além disso, ao mesmo tempo em que abandona a biografia e mergulha em explicações sobre minérios, astronomia, química e outros, também não consegue identificar se Paracelso contribuiu ou não para a ciência, sempre trazendo a mancha do ocultismo para as suas realizações.
Desta forma, o livro ainda é a melhor opção bibliográfica que se tem hoje disponível sobre Paracelso. Despido de um viés puramente ocultista, consegue transitar entre a vida do médico e os conceitos renascentistas de alquimia, metalurgia e transmutação, além de tentar explicar os confusos neologismos do médico suíço. Não é uma bibliografia perfeita mas, caso lido com atenção e carinho, pode-se aproveitar muito como conhecimento científico e histórico, além de importantes conselhos aos médicos: aprender com os pacientes e ouvi-los, pois a medicina se encontra em todo o lugar e não apenas nas universidades.