As velhas -

    Lourdes Ramalho

    Bagagem
    1975
    48 páginas
    1h 36m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    As Velhas, peça de Lourdes Ramalho, é um duelo manchado de rancor, amargura e paixão, que conserva no texto toda a pureza da comunicação dos sertanejos. A obra de Lourdes Ramalho, ao mesmo tempo em que preserva elementos culturais nordestinos com suas tramas cordelescas, falares entremeados de regionalismos, denúncia da Indústria da Seca, mostra também personagens delineados psicologicamente, como “Mariana” e “Vina”, apresentadas ao espectador no desenrolar da trama. E no sertão o universo humano aparece, do amor ao ódio, do político-social ao familiar, os conflitos vão permitindo ao espectador indagar, se indignar, sorrir ou chorar, já que cada um pode ver como seu olhar lhe permite. A autora mostra os humores alterados de duas matriarcas, a cigana Ludovina e a sertaneja Mariana. Com rixas do passado mal resolvidas, elas se vêem envolvidas em uma armadilha do destino: o filho de uma e a filha da outra se apaixonam. A situação caminha para o inevitável — as rusgas terão que ser passadas a limpo. O mascate Tomás é quem faz a ligação entre as histórias das duas famílias. O texto de Lourdes Ramalho toca em questões sociais (problemas agrários) e se aprofunda na condição humana. O texto defende a família, defende princípios. Não se trata apenas da mulher nordestina. Em As velhas, temos, como já citado, a denúncia da famigerada “indústria das secas”, no mesmo nível de narrativa. É uma peça carregada de regionalismo, mas que não se limita ao universo nordestino. A autora desconstrói o rancor das duas senhoras de uma maneira admirável. E inverte estereótipos: a cigana renunciou à natureza nômade em nome da família — e quem viaja para fugir da seca é a sertaneja. As mulheres são fortes, mas ao mesmo tempo sucumbem diante do amor incondicional pelos filhos. Os textos da autora revelam uma poética satírica que se encaixa muito bem no humor produzido pela comédia da cultura popular, herança deixada pelos ibéricos no homem do Nordeste do Brasil. Lourdes Ramalho cria um Teatro pleno do imaginário e fantasia, abordando a realidade de forma nua e crua, expondo e denunciando injustiças sociais, históricas ou políticas, transformando um homem simples, num herói grandioso, patético e quixotesco.

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    Alyson Jesuíno de Almeida Santiago23/12/2024Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Complexidade, dignidade e beleza

    As Velhas é um livro que impacta profundamente o leitor pela forma como Lourdes Ramalho descreve a vivência do envelhecimento feminino de forma sensível e realista. Com uma escrita meiga e introspectiva, a escritora expõe as várias facetas da vida dessas mulheres, que não são apenas "idosas", mas personagens multifacetadas, repletas de histórias, anseios e conflitos internos. O livro é uma autêntica celebração da complexidade da vivência feminina, desafiando preconceitos e fazendo com que o leitor veja as mulheres idosas não apenas como vítimas do tempo, mas como mulheres que, mesmo em seus últimos anos, carregam uma vasta bagagem emocional e um entendimento aprofundado do que significa viver. A força principal de As Velhas reside na forma como Lourdes Ramalho aborda questões como solidão, memória e fadiga física. Ela nos mostra mulheres que lidam com o abandono, a invisibilidade social e as perdas de várias naturezas, desde a ausência de entes queridos até a perda de seus corpos. No entanto, em vez de se prender a uma perspectiva melodramática ou simplista, a escritora molda suas personagens de forma humana, expondo suas complexidades emocionais e as sutilezas que permeiam suas existências. As idosas de Ramalho não são personagens cômicos, mas sim mulheres com uma riqueza interior notável, marcada pelas lembranças, pelo amor e pelas desilusões que permearam suas vidas. Lourdes Ramalho escreve de forma precisa e introspectiva, usando as palavras com uma elegância capaz de provocar emoções sem recorrer ao exagero. Cada história possui seu próprio ritmo, contudo, o tema principal - o envelhecimento e o olhar para o passado - está sempre presente, atuando como um elo que une as narrativas. A escritora consegue tornar cada personagem único e autêntico, evitando o lugar-comum das personagens idosas que simplesmente "aguardam a morte". Em contrapartida, as idosas de Ramalho são mulheres que continuam a se enxergar e a se reconhecer como indivíduos completos, aptos a sentir, amar e sofrer. Um outro elemento relevante do trabalho é a maneira como Lourdes Ramalho trata a memória. As lembranças, sejam elas agradáveis ou dolorosas, são os alicerces que essas mulheres edificam suas identidades, e a escritora lida com isso de forma comovente. As recordações da juventude, os amores que se foram e as desilusões da vida refletem as lutas internas que cada personagem enfrentou ao longo dos anos. As Velhas é uma obra marcadamente humanista, proporcionando uma perspectiva verdadeira e sensível sobre a vivência do envelhecimento feminino. Com sua escrita delicada e introspectiva, Lourdes Ramalho consegue tornar suas personagens universais, atingindo o leitor de forma intensa. O livro nos convida a ponderar sobre a vida, o tempo que passa e a maneira como enfrentamos a solidão e as recordações. Lourdes Ramalho, ao invés de se restringir a uma perspectiva simplista ou negativa sobre a velhice, demonstra que, mesmo na terceira idade, a vida ainda é repleta de complexidade, dignidade e beleza. Para aqueles que procuram um livro que instigue a reflexão e a empatia, As Velhas é uma leitura essencial. Amei o livro: 5 estrelas

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    3.7 / 28
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