Alguns escritores nos empolgam com suas histórias envolventes, que nos fazem esquecer por alguns momentos as agruras da insossa realidade. Outros escritores nos encantam ao dar vida a personagens fascinantes e irresistíveis, que se tornam inquilinos perpétuos nos santuários de nossos corações. Mas há também escritores de um tipo mais raro, que nos impressionam pela vastidão e profundidade de sua visão do mundo, demonstrando tamanho conhecimento da alma humana que mais parecem poderosos feiticeiros, que por meio de misteriosos sortilégios conseguem revelar a nós mesmos um pouco de nossas mais secretas intimidades.
Lembro nitidamente da primeira vez em que tomei consciência desse tipo tão especial e maravilhoso de Literatura: foi durante a leitura de Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski. Foi um impacto profundo e muito intrigante descobrir que aquele russo de outro século conhecia tão bem os meus podres e fraquezas! Depois percebi que Hermann Hesse praticava o mesmo tipo de magia literária, assim como o grande Tolstói.
Milan Kundera pertence à mesma escola mágica. As sete histórias de amor contadas em Risíveis Amores impressionam, sobretudo, pelo que revelam do fino entendimento do autor sobre as sutilezas, nuances e contradições das paixões humanas. Isso aliado a uma narrativa ágil e elegante, em tramas muito bem construídas que divertem ao mesmo tempo que fazem refletir. Como pano de fundo, um retrato da vida na Checoslováquia comunista da década de 1960. Um verdadeiro deleite literário!
Atravessamos o presente de olhos vendados, mal podemos pressentir ou adivinhar aquilo que estamos vivendo. Só mais tarde, quando a venda é retirada e examinamos o passado, percebemos o que foi vivido, compreendendo o sentido do que se passou.
(...) é sempre o que acontece na vida: imaginamos representar um papel numa determinada peça e não percebemos que os cenários foram discretamente mudados, de modo que, sem saber, devemos atuar num outro espetáculo.
https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2020/12/risiveis-amores-milan-kundera.html