Desde que descobri Simmel, estou fascinada pelo modo como ele apresenta a Alemanha que viveu: em guerra, em reconstrução, dividida. "Pátria amada" trata precisamente da Berlim recém-dividida pelo muro. A história trata de missões e polícias secretas, mas o mais absurdo é também o real (apesar de, aqui do Brasil, falarmos pouco disso): uma cidade dividida por quatro zonas, vigiada por quatro países distintos, e os cidadãos de um lado servem para atingir o outro. Uma Alemanha cheia de ideologistas desiludidos e de apolíticos indignados por serem tratados como fantoches.
Uma das coisas que me surpreendem ao buscar mais informações sobre Simmel é ver que, para alguns críticos da época, sua literatura era "de segunda linha", comercial demais. Aí eu lembro de Alexandre Dumas, considerado por uns o pai do romance histórico, já que ele pesquisava o cenário político e social que serviam de pano de fundo de suas histórias. Uma amiga minha garante que Dumas é o pai de todas as novelas, já que Milady é melhor do que qualquer vilã da novela das oito. Acabo concluindo que o problema de Simmel é não ter falado de uma sociedade passada e sim de uma sociedade que observava de perto. Como jornalista, pesquisou questões específicas para criticar em sua obra cheia de ironia, mas o fato de colocar isso nas entrelinhas de romances e histórias de espiões, nas quais nenhum personagem é herói ou vilão, incomodou quem exigia literatura 100% política.
Talvez pela própria experiência no Jornalismo, Simmel sabia que para ser lido tinha que escrever de forma atrativa a seu público. Com seus títulos dramáticos e suas sinopses prometendo aventuras, ele atingiu um público que não olhava de maneira crítica para o país em que vivia, forçando o reconhecimento de uma realidade que seria bonita nas ficções de Hollywood, mas que soa exagerada na literatura alemã - por quê?
Queria eu que hoje, em vez de tanto apego a dramas norte-americanos sobre a Segunda Guerra (na literatura e nos cinemas), as pessoas consumissem a obra de Simmel. Ele não traz heróis e vilões fantasiados, mas traz pessoas reais, com problemas comuns e tentando sobreviver com as migalhas do poder político.