A Serpente Emplumada é o deus asteca Quetzacoatl, uma divindade complexa da antiga civilização pré-colombiana. O romance conta a história de Kate (Katherine) Leslie, uma irlandesa rica e sofisticada vivendo no México em busca de rumo para sua vida. A narrativa alterna entre a interação da protagonista com outros personagens e a construção de um ambiente psicológico que o narrador apresenta como inerente ao México e ao nativo mexicano.
O narrador descreve um clima de hostilidade velada entre os nativos, os trabalhadores, e aqueles que ousam ser possuidores de algo. A questão social e política ligada à revolução socialista mexicana compõe um evidente pano de fundo psicológico.
Um dos principais eixos narrativos é a tentativa de resgatar a antiga divindade como símbolo de renascimento espiritual do México. Kate acaba envolvida por esse movimento, e sua jornada pessoal se entrelaça ao projeto mítico de reviver Quetzacoatl como emblema de uma nova ordem espiritual e cultural.
As descrições ao longo do livro tornam-se entediantes, mas são um elemento essencial quando consideramos que essas descrições apontam uma natureza à parte da natureza do resto do mundo. Não é uma natureza de Deus, cristã, mas uma natureza sanguinária.
A figura de Ramón, líder carismático do culto, encarna esse esforço de reconexão com as raízes pré-colombianas, propondo uma fusão entre o passado mítico e um futuro regenerador. Faz parte do esforço de Ramón preparar o povo para a volta do deus, e para isso distribui uma série de textos (hinos) que eu não creio estar exagerando em tratá-los como um evangelho do Quetzacoatl redivivo.
É frequente a descrição do “tipo mexicano” sob o olhar de Kate, o que confere um contorno erótico a certas passagens do livro — sugerindo não apenas o desejo, mas também a tensão entre o olhar estrangeiro e o corpo simbólico do México. Na trama é visível a ambiguidade dos sentimentos da protagonista em relação ao país. Num certo momento nota o povo infestado de parasitas, noutro momento admira sua beleza. É num clima de ambiguidade emocional que a protagonista escolhe assumir um importante papel no movimento de Ramón.
Enfim, o autor monta todo um cenário político, psicológico e social para criar as condições ideais para um povo aceitar placidamente a subida de uma aristocracia quetzalcoatliana que suprime o cristianismo e outros elementos do mundo moderno. Há semelhanças com a proposta de Julius Evola, contudo enquanto este propõe uma aristocracia solar para a Europa, D.H. Lawrence viaja numa proposta para o México. É como se D.H. Lawrence dissesse que o México não necessitasse de salvação, mas sim de um modo de realizar uma sinistra vocação.
15/11/2025