O escritor que corre atrás do sonho de firmar seu nome recorre, muitas vezes, aos concursos literários. No Brasil, há um grande número de pessoas que fazem disso quase uma profissão. E alguns se saem muito bem, como é o caso de Geraldo Trombin.
"Só concursados", livro lançado em 2010, traz poemas, contos e crônicas do autor, sendo todos textos premiados -- alguns deles, em mais de um concurso.
Parece-me que o forte do autor está nas crônicas, pareadas com sua poesia. Esta é repleta de rimas, e as rimas nunca ou raramente são intercaladas: há estrofes inteiras com as mesmas rimas, dando um ritmo e uma sonoridade que são a marca do poeta.
Quanto às citadas crônicas, vale destacar as mais breves. Trombim se sai melhor quando escreve pequenos textos. Voltando à poesia, talvez por isso, atualmente, prefira publicar trovas na internet, sistema lírico bastante conciso.
Mesmo os contos, que não são o ponto alto do livro, são atraentes, e vale a pena ter, ler e guardar "Só concursados", um livro especialmente interessante por quem é afinado com a poesia. Das 168 páginas do livro, 110 são de poemas.
É importante também ressaltar o trabalho gráfico da obra. Se, na inscrição dos concursos, há sempre uma limitação de editoração, com determinada fonte, determinado tamanho etc., no livro Trombim deu asas à imaginação da poesia visual. É, sem dúvida, um lindo livro, que embala e nos leva de uma a outra página num fluxo agradável.
Entre tantos poemas, há alguns eróticos, muito bem compostos. Entre todos, podemos mencionar como mais atraentes: "Nada", "Mulher abjeto" (crítica social), "Carretel" (metalinguístíco", "Fases/Faces Lunáticas", entre outros. Leiamos "Ires e Devires" como encerramento desta resenha:
"Mudamos de ares. Mudamos de lugares.
Mudamos as rotas. Mudamos ademais, as derrotas.
Mudamos o inventário. Mudamos as roupas no armário.
Mudamos a conversa. Mudamos pela nossa pressa.
Mudamos nossos passos. Mudamos nossos laços.
Mudamos o olhar. Mudamos o sonhar.
Mudamos o pensar. Mudamos o caminhar.
Mudamos o trabalho, o salário. Mudamos as cartas do baralho.
Mudamos o ânimo. Mudamos o desânimo.
Mudamos o hábito. Mudamos o hálito.
Mudamos de emoção. Mudamos até o coração.
Mudamos por mudar. Mudamos por precisar.
Mudamos a liberdade de ir. Mudamos o direito de vir.
Mudamos tudo, enfim! Mudamos o começo, o meio e o fim.
Somos, naturalmente, assim: atravessados por devires.
Na mais ampla definição da palavra, mudamos em todos os sentidos.
Basta sentires - odores, olhares, paladares. Ou apenas ouvires."