"Não vamos, somos levados". A primeira vista, poderíamos pensar, como é de hábito, que somos guiados por um acaso que tem razão, porque esse acaso é fruto da vontade de um Deus. Pensando mais um pouco, chegamos à conclusão de que se não tivermos razão nossos sentidos ou instintos nos escravizarão na caverna de Platão. Não satisfeitos com essa triste imagem, optamos por conversar com Heidegger, um cara que se ocupa (embora já tenha morrido faz tempo, ele está no meio de nós), "assim na terra como nos céus", em "santificar" o nosso nome. Antes de qualquer suposição, espere esta explicação: um seguidor de Nietzsche jamais cometeria o pecado de travestir o homem com asas. Heidegger quer dar as chaves que o homem precisa para sair da caverna de Platão, mas sem a luz de um sol artificial, que está caduco por tempo de uso, semi-morto. Porém, para que o homem receba esse presente de Heidegger, é preciso que se sinta disponível para ser aberto, desprotegido, dissolvido, é indispensável que, antes de tudo, saiba que não é uma estátua condenada a viver parada, conservada, ou a ser livre para não ser, ou para ser um animal de rebanho. Heidegger pretende ser um novo messias, só que se um era sem um Deus a priori, pois este, parece que se aposentou depois que o homem decidiu ser guiado pelos máquinas.
Qual é a verdade, o caminho e a vida para o "pensador da floresta"? O ser é uma possibilidade. Se caminho, assim como seus pés, a sua velocidade, a sua intensidade e profundidade no ato de andar podem ser pintados com as suas mãos. O homem está condenado a ser um deus, parafrasearia Heidegger a sentença sartreana, na medida em que tem dentro de si a questão ou o problema: como ser? como estar no mundo? como compreender?
Tendo em vista o atual estado de infantilidade do homem, que acredita que a felicidade do "último homem" existirá para sempre, por não ter tido começo (e devido a sua falta de memória), podemos descobrir que ele que está muitíssimo confortável e conformado com a sua condição pós animal, e que se esqueceu da sua indigência. É isso mesmo, de nada valeu para o homem, ser bem vestido, ser bem colocado no mercado de trabalho, na sua cidade, no seu lar, se não tem um ser (ou não é mais autor do seu ser), pois seu pescoço não permite que ele pense além do que foi pensado. Esse indigente, esse faminto, não sabe que tem recursos (todos) dentro de si para enriquecer, se alimentar e viver; ele aprendeu (foi adestrado, por vontade própria ou não) que todo recurso, para ter valor ou existir (ser visto através do brilho do sol), necessariamente tem que estar a venda. É enfiado nessa brincadeira que o homem sorri, enquanto trilha sua jornada em direção à morte, enquanto faz valer para si a mentira de que nada haverá de novo, nunca, debaixo do sol, enquanto o homem for homem. Esse homem acreditará até o juízo final que eles próprios podem criar suas medalhas para usarem no paraíso que criaram na areia. Eis os surdos que não ouviram, quando o profeta Nietzsche disse às suas almas: "O homem é algo de deve ser superado".
"Bem aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.
Bem aventurados os que choram, porque serão consolados.
Bem aventurados os mansos, porque herdarão a terra.
Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
Bem aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Bem aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.
Bem aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.
Bem aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.
Bem aventurados sereis, quando vos insultarem, vos perseguirem, e disserem, falsamente, toda a espécie de mal contra vós por causa de mim.
Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois também assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós."
Por que? Em verdade eu vos digo que só encontrará o céu aquele que não acreditar que ele é um teto. E só poderá voar aquele que não tiver telhado em casa.
Na seara da filosofia, não a distinção entre os homens, se são ricos ou pobres de qualquer coisa. A liberdade é a lei que rege aqueles que almejam despertar de um sonho milenar ou secular. A bagagem, nesse trabalho, pode ser um peso, um vínculo, uma cria que, apesar de não ser nossa, achamos que precisamos cuidar, porque algum deus oculto, uma lei, ou uma moda, assim desejam.
Que seja feito o nosso ser!