... Porém, quando a conhecemos ainda melhor, torna-se séria e terrível" (p. 112).
Estou pensando em fazer uma monografia citando O Processo e resolvi ler esse Outro Processo buscando algumas reflexões sobre o suplício de Josef K.. O que achei, porém, foi uma apaixonada descrição das esquisitísses e obsessões que permeiam essa e muitas outras obras de Kafka.
Fiquei com a impressão de que uma espécie de método kafkiano consiste em olhar para um de seus medos e ficcioná-lo até o absurdo, mas (como explica o tradutor Modesto Carone no volume Essencial Kafka), sonegando qualquer explicação para o absurdo da premissa. Daí, acho, resulta essa sensação de pesadelo que eu sinto quando leio seus contos.
Nesse Outro Processo podemos entender um pouco esses medos, porque os vemos como foram exibidos a Felice, sua confidente. As cartas parecem estar em um nível intermediário de elaboração literária, muito menos ficcional que os contos, mas, ainda assim, compostas com o cuidado estético e estratégico do escritor.
Canetti ainda contextualiza as cartas com passagens do diário de Kafka e com cartas a outros amigos, de forma que me pareceu assistir, como que através da janela, esse escritor perturbado, magro e obcecado fazendo a única coisa que achava digna, escrever.
Há, ainda, o delicioso aspecto de fofoca, tão bem expresso na citação que abre esta resenha. Saber os detalhes íntimos de como o escritor de obras imortais, tão citadas e celebradas anos depois de sua morte, mantém inabilmente um noivado por cartas, como se sabota, como retorce certos pensamentos que em outros vemos tão simples, tão incutidos pela sociedade.
E, nos contornos dessa vida íntima, Canetti nos dá reflexões muito bem elaboradas sobre a relação de Kafka com o poder, com a sociedade e com a natureza humana, tornando o ensaio uma fonte de reflexão profunda, não só sobre os escritos de Kafka, mas sobre as nossas vidas.
A leitura, enfim, é incrível e recomendadíssima para todos os que leram obras de Kafka, várias delas comentadas com detalhe por Canetti. Me ajudou a criar uma relação mais pessoal com essas obras, levantando o véu somente o suficiente para aprofundar o entendimento do contexto, sem, contudo, diminuir o mistério, a inquietação e as infindáveis interpretações possíveis para os labirintos kafkianos.