Primeiro livro pós-Nobel, 'A história do pé e outras fantasias' ganhou popularidade no Brasil por conta de sua pomposa editora, Cosac & Naify, pois o autor, tanto aqui quanto no resto do mundo, não é tão cultuado assim, o que é uma pena. Reconhecido pela escrita culta e cuidadosa, além de ‘aventuras poéticas’, mencionadas pelo Nobel, o autor certamente merece ser conhecido.
As novelas presentes nesse livro, então, podem ser uma ótima porta de entrada para quem tem o interesse de conhecê-lo, já que elas trazem a mesma essência que encontramos em seus livros mais famosos. Histórias cotidianas e atuais, sobre feminismo, relacionamentos abusivos, refugiados, extradição, aborto, mas com o ar saudoso de Le Clézio e sua memória afetiva, que parece embalar o leitor, feito uma canção de ninar.
'História do pé' – É através do pé de Ujine que o autor conta a história dela, desde o nascimento, até sua fase adulta, monótona em Paris, quando conhece Samuel e parte para um relacionamento nada saudável, já que o rapaz é totalmente o oposto de Ujine, a começar pela sola do pé.
'Barsa ou Barsaq' – A vida de Fatou muda drasticamente quando seu pai morre e ela tem que abandonar os estudos para cuidar e viver com sua tia avó. Em um Senegal pobre, machista e retrogrado, a jovem, junto com Mahama, uma paixão de longa data, decidem conhecer a rica Barsa, Barcelona, mas os desafios como o esperado, são muitos, e eles podem acabar conhecendo, na verdade, Barsaq, a morte.
'A árvore Yama' - Sem ter conhecido a avó Yama, Mari se alimenta das diversas histórias dela com uma árvore, e decide homeneá-la dando o nome a árvore. Os anos passam, e Mari passa a estudar na cidade. A Segunda Guerra Civil da Libéria então bate a porta, e a protagonista, juntamente com a amiga libanesa, tentam sobreviver com a ajuda mística da avó.
'L. E. L, últimos dias' – Com um embasamento biográfico, o autor mescla de maneira incrível os últimos dias de Letitia Elizabeth Landon, romancista e poetisa inglesa, que parte para o que hoje é Gana, por conta de seu marido, o governador George Maclean, com a cultura africana, alçando a história para patamares místicos e incríveis. Surpreendentemente, um dos melhores contos.
'Nossas vidas de aranhas' – Deslocado na coletânea, o conto traz aranhas em seu habitat natural, relatando a passagem do tempo através da condição humana, com todas as suas brevidades e fraquezas.
'Amor secreto' – Uma ótima novela narra à vida da freira Andrea, com seu programa de reeducação prisional, ao ler sua própria história para elas. Acontece que as sessões de leitura são cortadas, e problemas surgem.
'Felicidade' – O que mais me desagradou, este conto fala de maneira muito metafórica, com pitadas de distopia, em um mundo pós-apocalíptico em que a felicidade não existe mais, até que surge uma pessoa, Viram, que é tudo como o Messias, por contrapor as regras daquela sociedade.
'Yo' – Um belo conto, Yo é um jovem com distúrbios mentais que relata , com franqueza e até amor, sua relação com a mãe, o padrasto, assim como com os clientes do restaurante da família. Impossível não terminar a leitura com pesar e compaixão.
'Ninguém' – Outro conto que beira o experimental, o narrador é um espírito, o de um feto, que narra como sua mãe morreu em uma guerra civil, e aproveita para mergulhar nas tantas mortes que assolam o mundo.
'Quase apólogo' – Um ensaio despretensioso, ele serve tanto como uma dica para se escrever, como uma reflexão de como fatos e acontecimentos banais inspiram histórias incríveis; funciona também como uma declaração de amor do que a literatura representa na vida do autor. Um bom texto de encerramento.
Enfim, viajando pela Europa e África para contar suas aventuras poéticas, Le Clézio desliza em alguns momentos, mas ainda assim não deixa de entregar um livro bem amarrado, que aquece o coração do leitor, mesmo com temas delicados e difíceis de digerir, e faz com que ele queira acompanhar mais a trajetória de cada um dos personagens, mesmo com todas as suas imperfeições.
Este livro faz parte do projeto 'Lendo Nobel'. Mais em: