A coisa mais inquietante > 3a dissertação on Genealogia da moral, Nietzsche submete a definição kantiana do belo como prazer desinteressado a uma crítica radical :
[...]a favor de Kant, a afirmação de que, sob o fascínio da beleza, se pode olhar, de modo desinteressado, até uma estátua feminina nua, ser-nos-á permitido rir um pouco às suas custas : as experiências dos artistas, quanto a esse ponto delicado, são, pelo menos, mais interessantes, e Pigmaleão não era necessariamente um homem inestético.
> A privação é como um rosto
Se a morte da arte é a incapacidade na qual ela se encontra de atingir a dimensão concreta da obra, então a crise da arte no nosso tempo é, na realidade, uma crise da poesia, da ÏοίηÏιÏ. ΠοίηÏιÏ, poesia, não designa aqui uma arte entre outras, mas é o nome do fazer mesmo do homem, daquele operar produtivo do qual o fazer artístico é apenas um exemplo eminente e que parece hoje estender, em uma dimensão planetária, a sua potência no fazer da técnica e da produção industrial. A pergunta sobre o destino da arte toca aqui uma zona na qual toda a esfera da ÏοίηÏÎ¹Ï humana, o agir pro-dutivo na sua integridade, é posto em questão de modo original.
> Esse fazer pro-dutivo (na forma do trabalho) determina hoje em toda parte o estatuto do homem sobre a terra, entendido a partir da práxis, isto é, da produção da vida material
> - O gênero da poíesis é diferente do da prâxis
Como vimos no capítulo precedente, os gregos se serviram, para caracterizar a ÏοίηÏιÏ, a pro-dução humana na sua integridade, da palavra Ïá½³Ïνη, e designavam com o único nome de ÏεÏνίÏÎ·Ï tanto o artesão quanto o artista. Mas essa unidade de designação não significava de modo algum que os gregos pensassem a pro-dução a partir do seu aspecto material e prático, como um fazer manual ; o que eles chamavam de Ïá½³Ïνη não era nem a realização de uma vontade, nem simplesmente um fabricar, mas um modo da verdade, do á¼-ληθεύειν, do desvelamento que produz as coisas, do ocultamento à presença.
ΤέÏνη significava, portanto, para os gregos : fazer aparecer, ÏοίηÏιÏ, pro-dução na presença ; mas essa pro-dução não era entendida a partir de um agere, de um fazer, mas de uma γνῶÏιÏ, de um saber117. Pro-dução (ÏοίηÏιÏ, Ïá½³Ïνη) e práxis (ÏÏᾶξιÏ) não são, pensados de modo grego, a mesma coisa.
>A essência da pro-dução,
pensada de modo grego, é levar algo à presença (por isso Aristóteles diz á¼ÏÏι δε Ïá½³Ïνη Ïá¾¶Ïα ÏεÏá½¶ γÎνεÏιν, toda arte concerne ao dar origem) : em consequência, ela tem necessariamente fora de si o seu fim (ÏÎλοÏ) e o seu limite (ÏÎÎ»Î¿Ï e Ïá½³ÏαÏ, limite,
são em grego a mesma coisa, cf. Aristóteles, Met. IV, 1022b), que não se identificam com o ato mesmo de produzir.
Os gregos pensavam, portanto, a produção e a obra de arte de modo oposto àquele em que a estética nos habituou a pensá-los :
a ÏοίηÏÎ¹Ï não é um fim em si, não tem em si mesma o seu limite, porque, na obra, não traz a si mesma à presença,
CAPÍTULO NONO > A estrutura original da obra de arte > Tudo é ritmo, todo o destino do homem é um só ritmo celeste, como toda obra de arte é um ritmo único, e tudo oscila dos lábios poetizantes do deus... Essa frase de Hörderlin não nos foi transmitida pela sua mão. Ela pertence a um período da sua vida aquele entre 1807 e 1843 que se costuma comumente definir
X diferente de:
(ip)
>valor cultural nem um objeto privilegiado para a αἴÏθηÏÎ¹Ï dos espectadores, e nem mesmo a absoluta potência criativa do princípio formal, mas se situa, ao contrário, em uma dimensão mais essencial, porque permite ao homem, a cada vez, ter acesso à sua estatura original na história e no tempo. Por isso, Aristóteles pode dizer no livro V da Metafísica : á¼ÏÏαὶ λέγονÏαι καὶ αἱ Ïá½³Ïναι, καὶ ÏούÏÏν αἱ á¼ÏÏιÏεκÏονικαὶ μάλιÏÏα, também as artes são consideradas origens, sobretudo as arquitetônicas
> A obra de arte perde, portanto, a autoridade e as garantias
> que derivavam da sua inserção em uma tradição, para a qual ela construía os lugares
e os objetos em que incessantemente se realizava o elo entre passado e presente ; mas, longe de abandonar a sua autenticidade p se tornar reprodutível (realizando assim o voto de Hölderlin de que a poesia voltasse a ser algo que se pudesse calcular e ensinar), ela se torna, ao invés disso, o espaço em que se cumpre o mais inefável dos mistérios : a epifania da beleza estética. > O fenômeno é particularmente evidente em Baudelaire, que Benjamin considerava, no entanto, o poeta no qual a decadência da aura encontrava a sua expressão mais típica. > Baudelaire é o poeta que tem que enfrentar a dissolução da autoridade da tradição na nova civilização industrial e se encontra, por isso, na situação de ter que inventar uma nova autoridade : e ele cumpriu essa tarefa fazendo da própria intransmissibilidade da cultura um novo valor e colocando a experiência do choc no centro do próprio trabalho artístico. O choc é a força de colisão que as coisas adquirem quando perdem a sua transmissibilidade e a sua compreensibilidade no interior > de uma ordem cultural. ponto
fin