A INTIMAÇÃO, de John Grisham
A obra abandona o frenesi dos tribunais para focar no peso psicológico de uma herança inesperada e na paranoia de um homem comum sob o sol do Mississippi. Diferente dos épicos jurídicos cheios de testemunhas bombásticas, o grande trunfo aqui é o isolamento claustrofóbico. Grisham constrói uma tensão magistral usando apenas o silêncio de uma casa antiga e a descoberta de 3 milhões de dólares em dinheiro vivo. O ponto alto é o "terror administrativo": a angústia de Ray Atlee não vem de criminosos, mas da dúvida sobre a integridade do próprio pai. É um suspense de "porta fechada" que prova que Grisham não precisa de juízes para criar um ambiente hostil. Por outro lado, se o início é um mergulho profundo na psique do protagonista, o desenvolvimento sofre um pouquinho de uma inércia narrativa, com descrições de rotas e movimentos logísticos (para alguns pode gerar a impressão de drenar a energia do mistério inicial, mas que é uma característica que se torna interessante a quem se considera um analista literário). Para o leitor que espera as reviravoltas de "A Firma", o ritmo de "A Intimação" pode decepcionar. Num paralelo, há que se observar que enquanto "A Firma" é o clássico suspense jurídico de alta adrenalina que lançou o autor ao estrelato, focado na corrupção de grandes corporações e no perigo mortal para um jovem advogado, o autor quis fazer algo diferente em "A Intimação". Escreveu especificamente para retomar o suspense jurídico após passar dois anos explorando outros estilos (como em A Pintura e Esquecer o Natal). Também foca mais em conflitos familiares e segredos pessoais e, embora mantenha o pano de fundo jurídico, priorizou o mistério psicológico e a busca por respostas sobre o passado da família Atlee em vez de grandes batalhas judiciais. Ao cabo, uma obra sobre o fardo do segredo...excelente para quem aprecia a construção de atmosfera, mas arriscada para quem busca ação jurídica frenética.

