Encontros promovidos pela poesia
Alguns anos atrás, fui a um congresso na área de Letras na Unicamp. Lá tive a oportunidade de travar meu primeiro conhecimento, tardio, com a obra de um poeta chamado Alberto da Cunha Melo. Uma doutoranda apresentava o seu trabalho sobre ele, tinha esse autor como uma espécie de possessão e chegou mesmo, em sua fala, a qualificá-lo como um poeta infalível. Isso me deixou um pouco desconfortável, mas percebi que deveria ser apenas o vício comum aos acadêmicos – independente do título que possuam -, eleger um autor xis e defendê-lo com unhas e dentes e atacar os críticos também com unhas e dentes. Gostei da comunicação e do poema que foram lidos. Depois foi aberto o espaço para o diálogo. E eu falei um pouquinho, principalmente para aprender acerca do poeta. A doutoranda respondeu de modo adequado, demonstrando domínio sobre o seu objeto de estudo. Mas eu não me contive e, viciado em métrica, sugeri que no poema lido, “Relógio de Ponto”, um determinado verso talvez não estivesse na medida exata, que comportaria uma sílaba poética a mais, quebrando desse modo a isometria. A mocinha me olhou com uma cara estranha. E acrescentei que, devido ao assunto abordado pelo autor, poderia ser um procedimento proposital, com o intuito de exatamente quebrar a estrutura de um verso tão rígido e promover uma ruptura semântica, e que isso muito bem caberia àquela construção. Enfim, eu descobrira algo que até ali não havia sido tocado. Uma senhora que acompanhava a sua orientanda de doutorado, nesse momento, sorriu. Mudando de assunto, tempos depois, aumentei meu interesse e intensifiquei meus estudos por uma forma poética de origem japonesa, o haicai. Devo confessar que já se passaram mais de cinco anos que pesquiso haicai, mas ainda me sinto muito constrangido quando o componho. Cheguei mesmo a entrar num grupo de discussão na internet sobre o tema, e não progredi muito nas minhas certezas, se é que possuo ao menos uma delas. Foi a partir desse grupo que iniciei um diálogo com um poeta lá da Bahia. Seus comentários na discussão eram bastante pertinentes, ele mostrava-se não só conhecedor e produtor da matéria, como também assumia uma atitude crítica, tendendo para a criação e/ou aceitação de um haicai abrasileirado. Aos poucos estreitamos contato e ele me deixou muito mais à vontade com minhas experiências haicaísticas, notando mesmo algum valor naquilo que eu vinha produzindo. Pois bem, esse poeta se chama Gustavo Felicíssimo e recentemente me enviou seu novo livro. Sempre tive curiosidade acerca de seu sobrenome, Felicíssimo, nunca tive coragem de perguntar, mas sem dúvida o identifica, porque ele virtualmente sempre me pareceu um otimista de plantão e possuidor de um astral altíssimo, contagiante. Voltando ao livro do Felicíssimo, publicado pela editora Mondrongo, “Procura e outros poemas” é resultado de um trabalho que vinha sendo executado por quase uma década, em que o poeta depurava (ou conspurcava?) uma forma poética fixa, denominada “retranca”. Aqui precisamos fazer uma ligação de nomes e de procedimentos. Retranca é uma forma fixa poética que se caracteriza, como o próprio GF explica, “por um esquema em quatro estrofes com a seguinte disposição: 4, 2, 3, 2, com oito sílabas métricas por verso, onde o quarteto possui rimas (soantes ou toantes) entre o segundo e o quarto versos; o primeiro dístico com rimas emparelhadas; o terceto com rimas acontecendo entre o primeiro e terceiro versos da estrofe e um dístico final também rimado”. A retranca é provável que seja a primeira forma fixa poética nacional e criada por um poeta brasileiro, exatamente o já citado Alberto da Cunha Melo. Felicíssimo declara ter influência explícita desse poeta e parece ter incorporado muito bem a seu fazer literário a retranca. Numa análise simplificada e simplificadora, talvez a retranca seja uma espécie de soneto caboclo, um “cárcere estético” brasileiro para que corajosos artífices do verso possam “voar fora da asa”, como nos ensina um verso de outro poeta, Manoel de Barros. A retranca, assim como qualquer texto poético de forma fixa, é poema para poucos e, no caso, GF demonstra ser um desses raros que assumem a responsabilidade de seguir regras bastante rígidas e mesmo assim manter a poesia liberta, em pleno voo. Seguindo uma bem demarcada rota lírica, percebe-se que a procura, que consta no título do livro, teve muitas descobertas interessantes. Na retranca justamente denominada “Poema”, Gustavo relata sua profissão de fé, libertar o poema de seu cárcere, para que ele assuma sua real natureza agregadora, pelo beijo, pela brisa, pelo abraço. Em “A treva e o lume”, há um jogo de contrários, jogo que os harmoniza, mostrando que o livro é tão necessário quanto a treva, porque só assim pode permitir a luz, o farol, o fogo. Em “Amoras”, abusa da fantasia verbal quando pincela “na verdade eu pintei de amoras / algumas palavras normais” e desloca sua abstração pictórica para a música de Mozart. Em “Revisão de Leminski”, o nosso “samurai malandro” é dignamente lembrado e celebrado. Em todo o conjunto de retrancas dedicado à filha, “Cantigas para Flora”, o poeta e o pai apresentam a herança da educação e do amor paterno, nada mais afetivo e efetivo. Enfim, temos uma série de poemas que atendem ao rigor do verso, mas primam pela verve na sua composição. Na verdade, eu só queria era falar umas palavras sobre o livro “Procura e outros poemas”, mas me sinto agora completamente perdido e não sei se atingi o meu objetivo. Talvez eu quisesse apenas dizer que Gustavo Felicíssimo, mesmo quando repete um modelo estético, permanece fiel a si mesmo ao divulgar de seu íntimo a velha novidade de sempre: o frescor e o vigor da boa poesia. É isso. Ponto. (Texto publicado originalmente na Revista Semana Online #45)
