"Neste novo trabalho, Tico vem nos revelar, ou escancarar, esse mundo que alguns insistem, eufemisticamente, em tratar com as belas palavras de 'vulnerabilidade social'. Os pés-rapados, os fudidos, os sujos, a ralé, os pobres, os atormentados, os debaixo na escala de servidão em que estamos metidos até o sangue. Ele nos leva a perambular por esse universo no qual esteve lado a lado com seus personagens ou ele próprio afundado ali. Tico, que já esteve vinte vezes internado em cativeiros modernos, narra, com conhecimento de causa e das causas, os horrores que a maquinaria do sistema fabrica, distribuindo suas doses de loucura para cada um. Para escrever 'As núpcias...', Tico refugiou-se para as bandas do sertão de Ubatumirim, num lugar à luz de lamparina, fogão a lenha e pássaros, e foi longe do olho do furacão, no qual estivera, que pôde espiar pelas frestas da natureza as brutezas a que estamos sujeitos. Ele observa tudo, não passa nada batido, mas também não nos deixa rastros, não apresenta vestígios de para onde iremos na próxima página. Uma coisa é certa, caro leitor, suas eventuais desgraças dificilmente serão piores que a desses personagens.' (Binho, poeta [Sarau do Binho]). Esta é uma publicação financiada pela Agência Popular de Fomento à Cultura Solano Trindade através do Fundo Popular de Cultura, gerenciado pelo Banco Comunitário União Sampaio. Trata-se de uma iniciativa que tem como objetivo o fortalecimento da cultura popular, estimulando e apoiando escritores, poetas, músicos, atores, escultores, cineastas, dançarinos, pintores e demais artistas populares da quebrada. Apoio: União de Mulheres de Campo Limpo e Adjacências, Sarau do Binho, Luta Popular, Ciclo Contínuo. SOBRE O AUTOR Francisco Pinto de Campos Neto, 54, o Tico, sepulta cadáveres de dia e concebe personagens ao anoitecer. De segunda a sexta, das 9h às 16h, é coveiro no cemitério da Consolação, no centro de São Paulo. Em 1980, Tico passou em letras na USP, mas não terminou a faculdade. Trabalhou como revisor na área e, inquieto, fez de tudo um pouco: assistente de caminhão, porteiro de boate gay, pintor de parede... A vida foi ficando difícil, e ele acabou indo morar na rua. Tinha 34 anos quando foi internado pela primeira vez, numa instituição particular, por conselho do irmão mais velho --Tico tinha virado um copo de álcool Zulu. "Passava dias bebendo e cheirando pó." Foi confinado 20 vezes por causa do vício, em clínicas privadas e públicas. Está sóbrio há dez anos --por força de vontade, não à força pelas intervenções médicas, acredita. No ano passado, o homem que desde menino sonhava em viver de literatura viu um cartaz da prefeitura: concurso para sepultador. Conseguiu dinheiro emprestado e se inscreveu. Também em 2012, foi acolhido por Robson Padial, 48 --é dele o Sarau do Binho, projeto itinerante que reúne artistas da periferia paulistana. Tico conheceu ali a Agência Popular de Fomento à Cultura Solano Trindade, que financiou uma tiragem de 500 exemplares de "As Núpcias". Das dez histórias do livro, quatro se passam em manicômios. A temática rendeu a Tico, em maio, o 5º Prêmio Carrano de Luta Antimanicomial e Direitos Humanos. A obra trata de abuso de medicamentos, punição e abandono. Nenhum personagem é real, mas o autor escreve com conhecimento de causa. (Folha de São Paulo - 04ago2013)
As núpcias do escorpião -
Tico
Independente
2012
138 páginas
4h 36m
ISBN-13: 9788591439607
Português Brasileiro
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