A aurorA em fragmentos
"A fluidez da aurorA", quarto livro de Victor del Franco, impressiona pelo fragmentarismo e a multiplicidade. Nele convivem sonetos clássicos, sonetos brancos e sonetilhos com páginas diversas de poesia concreta, especialmente com ênfase em ondas. Os temas também são variados, e não ficam apenas na força do amanhecer, ou ainda, ampliam a aurora para novos conceitos, como o da tecnologia que nos faz sempre iniciantes nas novidades que ela traz. O livro começa com um capítulo de um único poema, "Travessia": "o céu de outrora azul se fez na lucidez do espaço agora a esfera aflora em cor e tez na fluidez da fina aurora em luz aberta aura repleta desse farol dia nascente de uma nascente de girassol" Após a beleza deste sonetilho introdutório, encontramos sonetos como "Navegar", "Contando Estrelas" e "Origem", dispostos ao longo do volume. Além dos poemas concretos, que são muitos e longos, sendo que alguns são mapas da cidade de São Paulo circundadas, entranhadas ou estranhadas com as palavras "orbe" e "urbe"; outros são mandalas ("Respiração" e "Meditação"), além de um poema feito de completa ausência: "Iluminação", logo a seguir. Algumas tiradas são geniais, como no poema "Alvejar", em que, na última estrofe, lê-se: "a alma/ é o alvo": aqui, "alvo" tem o duplo significado de target e branco. Outro exermplo é o poema "AZ", de apenas uma palavra: "Almabatroz" (com o segundo "a" em itálico, o que não é possível reproduzir aqui). Outro, ainda, chamado "Labareda", enuncia: "esfinge tão completamente/ ardor que deveras sente", num trocadilho aos versos muito conhecidos de Fernando Pessoa. Um dos temas caros ao livro é a tecnologia, e vários poemas, concretistas ou feitos apenas de palavras, bem longos, tratam do assunto. Um desses poemas chama-se "CR1PTOGRÁFIC0", e faz trocadilhos com a combinação binária dos computadores, baseados nos números zero e um. A fluidez da aurora, livro da Patuá lançado em 2014, é uma leveza para a alma e um bálsamo para quem, como eu, o leu na madrugada, esperando o amanhecer. A arte do livro foi feita pelo próprio autor.
