Eu gosto bastante de novelas, filmes, séries e livros que retratem a história do Brasil, especialmente do último século do país. Por isso, quando vi que Rio Negro, 50 se passava no Rio de Janeiro, nos anos 50 e que misturava personagens fictícios com reais, fiquei curiosa e decidi solicitar o livro. Quando comecei a leitura, vi que ele era extremamente diferente do que eu imaginava.
Rio Negro, 50 não é uma história convencional; começa no início dos anos 50 e termina no final da década; não tem um protagonista, mas vários personagens que aparecem aqui e ali. Em 1950, a seleção do Brasil perdeu a final da Copa do Mundo de Futebol, um homem negro foi confundido com um dos jogadores e se tornou a vítima de um linchamento na rua. O crime e a derrota na Copa são alguns dos assuntos debatidos no Café e Bar Rio Negro, onde se reúnem esportistas, músicos, artistas do teatro, advogados e outros intelectuais, todos negros.
Resumidamente, o livro fala sobre como era ser negro na década de 50. Mostra o racismo e o preconceito, e a forma como os "homens de cor" (termo bastante usado na obra) conviviam com os brancos e as tentativas de resistência cultural dessa parte da população. Hoje, é inegável que as pessoas negras ainda são vítimas de discriminação, mas na década de 50, ela era muito mais forte. Pessoas que, mesmo famosas, não eram aceitas em hotéis chiques; que mesmo comprando ingresso como todas as outras, não podiam entrar nos bailes; que mesmo tendo dinheiro não eram aceitas nos clubes, sequer podiam entrar na piscina como convidados (com o argumento absurdo de que a água da piscina faria mal para a pele negra), sofriam toda essa discriminação apenas por serem negras, eram vistas com desconfiança até pelos seus semelhantes.
"Terminada a leitura do 'Relatório' ninguém mais tem dúvida de que há realmente uma Guerra Preta sendo articulada a partir do Rio de Janeiro. Então, as ameaças começam a chegar, por vias diversas." (página 143)
Nesse quesito de retratar uma época e uma condição social, Rio Negro, 50 é um bom livro e me agradou, mas para quem tem pouco conhecimento sobre a história do Brasil, pode ser uma leitura sem atrativos, já que há muitos personagens (mais de uma dezena) com histórias que se entrelaçam, mas nenhuma se destaca (poderiam ser escritos dezenas de romances com esses personagens fictícios, já os reais tem uma participação ínfima), os acontecimentos não seguem uma trajetória linear, de forma que se o leitor não prestar bastante atenção, pode se perder na história. Conheci várias palavras novas, e tive que exercitar a memória para lembrar o significado de algumas, além de fazer ligações entre o que eu sabia da década de 50 e o que estava acontecendo na trama. A narração é outro diferencial, estou acostumada com livros narrados no pretérito, e Rio Negro, 50 tem a narração no presente (exemplo: "Por isso ele anda devagar..." [página 15]).
"Boemia e alcoolismo nem sempre andam juntos. São que nem bandidagem e malandragem. Só às vezes se encontram. Como prazer e vício; discussão e bate-papo; turma e corriola." (página 24)
Ler Rio Negro, 50 me fez conhecer um pouco mais sobre a história do Brasil (a morte de Getúlio Vargas e o que ela desencadeou em nossa política, a paixão nacional pelo futebol, a vida boêmia da época, a era de ouro do rádio, o surgimento da TV, a ascensão das Escolas de Samba...) e, principalmente, sobre a cultura africana (as religiões, as comidas, a música...) .
"De tanto escutar que preto é inferior, feio, sujo, preguiçoso, a pessoa de cabeça fraca acaba acreditando nisso. E aí passa a não gostar nem dela mesma." (página 165)
Gostei bastante da capa, das cores e das fontes escolhidas. As margens, o espaçamento e a letra tem um tamanho bom, não encontrei erros de revisão e as páginas são amareladas.
"Mas não podemos nos dividir entre brancos e negros porque o divisionismo só vai servir para nos enfraquecer..." (página 149)