O livro "Jornalismo na era virtual", de Bernardo Kucinski, tem méritos, principalmente no que se refere ao primeiro capítulo: Uma nova ética para uma nova era. Esse trecho narra a transformação a ética de Kucinski de uma camisa à uma camisa de força, no qual ele se encontrou fundamentalista e ideologicamente defensor de certos preceitos, e que depois se libertou deles. Com o contato com novos estudantes, percebe alguns conflitos, como o que descreve por vazio ético das novas gerações, todas elas influenciadas pelo neoliberalismo. É uma visão saudosista e romântica, colocando uma etiqueta de descrédito para o jornalismo atual.
Do mesmo modo, discorre pela ausência do padrão ético hegemônico, configurando uma época de transição, inclusive reconhecendo que essa transformação é, de certa forma, necessária. Coloca a ética como mais individualista nesses tempos modernos, e, provisória. Exemplifica quatro expoentes dessa ótica ética: o da tolerância, do sucesso pessoal, do pluralismo e da liberdade. Trata também o jornalismo como uma indústria, em que os jornalistas, agora, são operários e a verdade é um Direito do Consumidor, atribuindo um caráter de mercado ao jornalismo.
No segundo capítulo, "Ética jornalística e direito à saúde", refere-se ao espetáculo de algumas coberturas, às diferenças da ética médica da ética jornalística, ao, que ele define, fracasso das democracias modernas pelo alto grau de injustiça social. É especialmente interessante sua conceituação de ética da equidade, destrinchando esse conceito como forma de ação do SUS, no sentido de dar preferência aos mais necessitados, mas sem jamais negar a qualquer cidadão que queira utilizar o serviço.
Na segunda parte desse capítulo, culpa as democracias elitistas da América Latina por vários problemas na saúde mundial, pincela os conceitos de mídia militante, ação afirmativa e desobediência civil. Fala da teoria do custo-benefício e expõe uma visão pessimista e levemente ideológica da saúde pública. Traz poucos dados de comparação, e faz uma crítica à profilaxia da esquistossomose, dizendo que a forma correta de prevenção não é realizada porque não abre “um campo de pesquisas científicas e de desenvolvimento de bactericidas; não abre mercado a novos antibióticos, germicidas e bactericidas”, conceituando o causador da doença, ora como bactéria, ora como germe, quando na verdade o causador da doença é um platelminto, ou, na cultura popular, um verme, portanto tratável com vermífugos, não com bactericidas ou germicidas.
Na terceira parte, "Jornalismo e corrupção", inicia o capítulo com a frase de Getúlio Vargas, “aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei”, estabelecendo dois conflitos éticos no jornalismo: O jornalista X fatos e o dono do jornal X poder. Fala da legitimação da corrupção, com conceitos interessantes, e um breve panorama histórico. Culpa o neoliberalismo pela corrupção endêmica e diz que é uma ideologia produtora de desigualdades. Trata de maneira interessante sua visão do denuncismo e do jornalismo de dossiê, sempre vinculados às disputas político eleitorais, elencando que “a imprensa define quais são os crimes – que, como vimos, não são necessariamente os capitulados em lei – e qual a punição: quase sempre a difamação da vítima, a destruição de sua imagem”. Ou seja, aos amigos, tudo; aos inimigos a lei.
No capítulo "A revolução anti-industrial da internet", Kucinski fala da nova ética surgindo após a rede mundial dos computadores, como, por exemplo, a ética do plágio. A sugestão é válida, mas o autor se esquece de mencionar que pirataria é “a coisa mais antiga da humanidade”, e, como não poderia deixar de ser, ela é maior em países em que a população tem menos recursos para gastar com propriedade intelectual. De qualquer forma, para ele, a internet rompe com o sistema industrial e é uma resistência a ele.
No fim do livro, Kucisnki critica o sistema financeiro, os eurodólares e as políticas cambiais americanas. Dá uma pincelada novamente no Declínio e morte do jornalismo como vocação, culpando ora o sistema neoliberal, ora os novos jornalistas e ora as próprias Academias. Uma frase que sintetiza o capítulo é: “o cinismo, que costumava atacar o velho jornalista do meio para o fim de sua carreira, hoje é o ponto de partida do jovem jornalista. Ele já começa cínico”. Também acredita que o sistema industrial imposto aos jornais atrapalha a sua produção, na medida em que valoriza-se mais o “fazer” do que o “saber fazer” e a criação do fenômeno, a ser evitado, da “mesmice jornalística”.