“Identidade perdida”, lançado em 1974, tem por início toda a cara de uma ficção policial, e usa como ponto de partida um clichê invariável: homem acorda num quarto de hotel sem saber como foi parar ali e sem identidade. Numa sociedade controlada por um aparato policial extensivo, logo ele percebe que sua condição o coloca numa posição extremamente arriscada de foragido da lei. Eventualmente a narrativa de perseguição será introduzida na história, bem como uma segunda trama envolvendo uma acusação de assassinato, mas essa é apenas uma preocupação secundária do livro, quase insignificante, na verdade.
Devo admitir que não comecei o livro com altas expectativas, apenas para iniciar um romance do autor, depois de ter passado por três coletâneas de contos seus. Os primeiros capítulos não trazem nada de novo (considerando ser um romance de ficção científica). Nem mesmo o futuro em que seus personagens habitam ganham uma forte descrição. Carros voadores, armas alienígenas, telepatas, tudo é apresentado como um aspecto banal qualquer, memorabília num aposento.
A trama: após confrontar uma ex amante, Jason Taverner, famoso apresentador de televisão, acorda sozinho num quarto de hotel, e à medida em que começa a se locomover, uma primeira peça intrigante do livro aparece: ao contrário do clichê de um personagem que acorda sem memória num lugar desconhecido, Taverner possui a memória intacta, o resto do mundo no entanto que parece ter esquecido a sua existência. Numa tentativa de contactar velhos conhecidos, como seu agente ou sua namorada, descobre que ninguém mais lembra-se dele, ninguém parece reconhecê-lo. Ao ser parado numa batida policial, descobre que sua identidade não existe mais em qualquer banco de dados em nenhum lugar no mundo. Taverner tornara-se uma não-pessoa.
No começo do livro, ele pede que o balconista do hotel em que ele acorda o leve até uma falsificadora, alguém que possa prover-lhe com documentos falsos até que ele consiga descobrir o que lhe aconteceu. A falsificadora, Kathy Nelson, é uma informante da polícia que, em troca da promessa de que um dia libertarão seu marido de um campo de trabalhos forçado (uma realidade corriqueira no futuro criado por K. Dick), entrega foragidos de quem ela não gosta para a polícia. A primeira pista de que esse não será um romance convencional, ou seja, de que seguir as linhas tradicionais de um romance de gênero não é exatamente a preocupação do autor, surge no relacionamento que se estabelece entre Taverner e Kathy. A garota interessa-se pela história do protagonista e o leva para a sua casa e os dois começam a conversar.
O clima que se segue em muito lembra um filme de Godard, onde os personagens apenas conversam casualmente – o mundo parece ter parado de girar para que os dois entreguem-se ao diálogo. O restante do livro seguirá essa fórmula, com uma sequência de encontros realizados pelo protagonista, enquanto ele busca reaver a sua identidade, entender o que lhe aconteceu, e ao mesmo tempo fugir da polícia. Se “Identidade perdida” é um livro de ficção científica, ele é, ao mesmo tempo, uma subversão de todas as fórmulas que tornaram o gênero acomodado num nicho. O modo como funciona a trama do livro é menos uma tentativa de resolver suas próprias questões, mas ver até onde ele pode chegar sem uma resposta.
Detalhar as circunstâncias em que se passam os diversos encontros do protagonista não cabe nessa resenha, basta dizer que o autor estava em pleno domínio do ritmo de seu livro para que cada encontro se encaixe no outro não como uma série de passos necessários para o desenvolvimento de uma trama, mas como um adendo à misteriosa circunstância em que encontra-se seu protagonista. Nesse clima de incerteza em que ele cria o seu romance, ele encontra o espaço para construir uma míriade de cenários psicológicos, pois cada personagem que se relaciona com o protagonista é tratado com um cuidado infinitesimal, a ponto de tornar a existência de uma protagonista na história um conceito fragilíssimo, que, com o passar das páginas, o próprio autor é o primeiro a derrubar.
O título nacional do livro pode parecer uma escolha muito certeira, dada a sua trama. Mas o título original, “Flow my tears, the policeman said” é muito mais condizente com o real desenvolvimento da história. Ao passo em que Taverner começa a caminhar por esse “novo” mundo em que foi jogado, K. Dick começa a delinear mais claramente os contornos do seu futuro distópico: a democracia deixou de existir nos Estados Unidos, o país passou a ser governado por uma elite policial, foragidos da lei (e até mesmo estudantes universitários) são obrigados a viver em campos de trabalho forçados. Taverner passa a viver no submundo dessa sociedade, dependendo da ajuda de estranhos para sobreviver. Em paralelo à sua fuga, somos também apresentados a Felix Bucknam, um dos policiais encarregado da perseguição.
É curioso o tratamento oferecido pela polícia a Taverner. Eles o tratam com uma espécie de indiferença distante e/mas violenta: ele não é uma ameaça ao sistema, ele é apenas uma falha curiosa, por não ter identidade alguma, um erro que ninguém consegue justificar. Assim como todos os outros, o personagem de Bucknam passa por seu próprio arco narrativo ao longo do livro, causado pelo personagem de Taverner, e que justifica o tom dramático do título original do livro, a ponto de obscurecer a trajetória do próprio Taverner.
Enfim, “Identidade perdida” é uma ótima pedida para quem quer alguma leitura enriquecedora (há uma história no meio do livro, sobre um coelho que queria ser gato, impagável) e uma nova visão sobre as possibilidades narrativas no gênero da ficção científica.
[blog.meiapalavra.com.br]