"Meus pulsos conheceram o ouro dos príncipes e as correntes dos escravos. Meus dedos afastaram muitos véus, meus lábios fizeram corar muitas virgens, meus olhos viram a agonia de cidades e impérios... Minha vida é a mais inesperada das travessias." - Leão, o Africano OS MISTÉRIOS DO ISLÃ E A OPULÊNCIA DO RENASCIMENTO NUMA HISTÓRIA CHEIA DE AMOR E AVENTURA Os segredos do Islã, revelados com impressionante riqueza de detalhes, e a opulência do Renascimento são o pano de fundo desta biografia imaginária de um dos mais marcantes personagens do século XVI. Nascido na Andaluzia em 1488, criado por piratas sicilianos, oferecido como escravo ao Papa, Hassan al-Vajjan - que depois se tornou o geógrafo João-Leão de Médici, ou Leão, o Africano - levou uma vida de aventuras, ambientada num tempo de grandes transformações. Esteve em Granada, durante a Reconquista; no Egito, quando os otomanos tomaram o país; em Roma, quando a cidade foi saqueada por Carlos VII. Reunindo lirismo, emoção e uma perfeita reconstituição histórica, "Entre Dois Mundos" é uma inesquecível viagem no tempo, em torno de uma das mais fascinantes figuras de sua época.
Entre Dois Mundos - Amores e Aventuras de Leão, o Africano
Amin Maalouf
Leão, o Africano, é daqueles livros que pedem entrega do leitor. Amin Maalouf parte de uma figura real Hassan al-Wazzan, diplomata e viajante do século XVI e cria uma narrativa em primeira pessoa, como se o próprio personagem escrevesse suas memórias. Acompanhamos, então, um homem arrancado da Granada muçulmana, exilado em Fez, e que, ao longo da vida, percorre diferentes culturas até chegar a Roma, onde ganha o nome que ficou para a história: Leão, o Africano. A estrutura do romance é curiosa já de início: Maalouf não começa direto pelo protagonista, mas pela geração anterior, mostrando de onde ele veio. Esse recurso deixa clara a marca principal do livro: uma história feita de cruzamentos, fronteiras e identidades em trânsito. E, mesmo sendo uma obra histórica, o autor não deixa de recheá-la com cores ficcionais que a tornam quase fantásticas em alguns momentos. O que me chamou atenção, e confesso, gostei bastante, foram as personagens femininas. Ao contrário do que se poderia esperar em um relato histórico (daquela época), as mulheres não aparecem como pano de fundo, mas como figuras fortes, diferentes entre si, que impactam diretamente a trajetória do protagonista. Esse destaque foi uma das surpresas mais legais da leitura pra mim. Claro que, em vários momentos, também cheguei a pensei: será que alguém viveu mesmo tudo isso?. E é aí que está a fronteira delicada do livro: Maalouf costura o que se sabe do Hassan real com muitas camadas de romance. O resultado não é uma biografia no sentido estrito, mas também não é pura ficção. É esse lugar híbrido entre o documento e a invenção que torna o livro tão interessante. Gostei mais de Leão, o Africano do que de Samarcanda, outra obra do autor que li antes. Aqui, senti mais vida, mais humanidade e também um mergulho mais generoso na história. E preciso deixar registrado: essa leitura foi especial porque foi feita em conjunto com uma amiga muito querida, Cristina Melchior - Relivrando. Ela me ajudou a contextualizar tanto o pano de fundo histórico quanto os aspectos religiosos da narrativa. Confesso que, sozinha, não teria aproveitado tanto a leitura ainda mais nesses tempos em que minha mente anda tão aérea. Nossas leituras compartilhadas sempre dão certo., mas nesse caso em especial, ela foi a leitora atenta e também uma mestre. Enfim, prepare-se para viajar junto: Hassan/Leão parece ter vivido dez vidas em uma só, e Maalouf nos dá a chance de acompanhar cada uma delas com intensidade.
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