As crônicas de Marina Colasanti abordam temas comuns do gênero do cotidiano ao mesmo tempo possuem nuances estéticas, muitas quase em prosa-poética. Vou concentrar minha análise numa crônica que me marcou, "Duas laranjas e o olhar", publicada pela primeira vez em 1971, exemplo por excelência da minha descrição de seu estilo:
Há coisas pequenas na vida, muitas com grande valor simbólico, acontecimentos do dia a dia que são como metáforas, frivolidades na superfície com profundezas de significado, que passam despercebidas. Não reparamos, desaprendemos a contemplar estamos imersos em preocupações, ansiosos para o amanhã... Isso é a vida que que não aprendemos a viver.
Nossa percepção de mundo foi condicionada: "Como vemos o que vemos? Ou, como lemos o que vemos?". Deixamos de ver com o nosso olhar treinado para ser utilitário, ou "olhando à frente e vendo só o que lhes interessa", o que realmente importa? O que faz a vida valer a pena?
"Se olhamos de um lado do binóculo vemos tudo aumentado. Se olhamos do outro, temos a impressão de ficar tão pequenos como o mundo que vemos. Os lados do binóculo são uma escolha."
Reparem na palavra que ela usa para descrever nosso modo de ver as coisas: "O olhar pode ser uma proposta. Ou pode ser um vício."
Sobre o que eu falei sobre o nosso olhar excessivamente utilitário: "O dentista vê mais os dentes do que o sorriso, o engenheiro vê mais a ponte do que o rio, a tarefa do vigia é ver o inesperado."
Tudo que notamos o é por determinado prisma. Duas pessoas não enxergam as coisas da mesma forma. A esse respeito, "Quantos olhares são necessários para a fruição de uma obra de arte?"
Concluindo, qual uma tese de sociologia:
"Temos também a educação do olhar. Cada família, cada grupo social, cada cultura treina o olhar das suas crias para ver de determinado modo, e para atribuir um significado específico àquilo que vê. Não somos donos exclusivos do nosso olhar, o lado do binóculo foi escolhido para nós quando ainda não tínhamos idade para a escolha. Mudar o foco pode ser tarefa da vida toda".