"Beira de rio" é um dos primeiros livros brasileiros que leio em um bom tempo, então ele me trouxe a felicidade de reconhecer diversos cenários e situações que só seriam encontrados aqui no Brasil. Acredito que a questão das diferenças sociais foi bem abordada, deixando claro que foi vista de um ponto privilegiado. E gostei principalmente de como a cultura local foi tratada, mostrando a importância que devia ser dada versus o tratamento que ela recebe atualmente.
Dito isto, "Beira de rio" cai muitas vezes num formato de "textão". Os começos do capítulo são repletos de história e informações importantes, que acredito que devem ter dado muito trabalho para o autor recuperar, porém essas informações poderiam ter sido inseridas sutilmente ao longo da narrativa. Como o começo de cada capítulo parecia uma matéria de jornal a leitura não fluiu tão bem quanto na parte ficcional da história. Algumas falas também adquiriram esse tom, mais para o final do livro. Todos os pontos levantados precisam ser debatidos, sim; não questiono isso. Só a forma com que isso foi feito que tornou o livro meio rígido.
Os personagens, entretanto, são incríveis, principalmente Cida. A dor com a perda do marido, o sumiço do filho... Ela é uma personagem que mexe de fato com o leitor. Renaud também é outro personagem que se destaca, a maneira como ele sobrevive a tantas condições adversas e vê no Brasil uma chance de começar novamente é algo lindo de verdade -- e o fato de ter sido ele quem ensinou Cida a ler torna a história dos dois ainda mais acalentadora. A história dos personagens de "Beira do rio" tem um tom de superação e esperança que são necessários nesse momento de golpe democrático que o nosso país vive.