“O particular vira geral, o regional já não existe. Minas é metáfora do Brasil”. Daí o “Planeta”, que se foi forrando com picos, diamantes, águas, ladeiras, lençóis e muita pólvora para receber Beja, Chica, Olímpia, Tiburtina e Ângela. Salvaguardando as diferenças de séculos, castas e têmperas, as cinco filhas das Gerais poderiam organizar um sabá de exorcismo do funesto fantasma que sempre as assombrou: a tradicional família mineira. Não queremos esquecer essa família mineira, apagá-la do nosso caminho, só vamos emoldurar e pendurar na parede o jugo masculino como cicatriz a ser lembrada. Queremos rir dela como quem ri de uma criança muito travessa e malcriada.
Estas serras que tudo rodeiam fizeram nossa natureza introspectiva; pra dentro, mas tão pra dentro, que aos que fugiram (correção: às) da genética de quietude-política-missa de domingo foram erguidas fogueiras santas. As que ousaram transgredir os boníssimos padrões comportamentais que o patriarcado esculpiu foram levadas à inquisição mineira. Saberiam que a História far-lhes-ia justiça...?
Eximiamente Fernando Gabeira toma como retalho matriz de sua colcha poética a vida da socialite Ângela Diniz, desde os instantes que antecederam sua chegada ao Planeta Minas. Cada passo da vida da bela criada no Lourdes, menina dos olhos da alta sociedade belo horizontina , é como um nó sem volta que desembocaria em seu assassinato na Praia dos Ossos, Rio de Janeiro. O crime: desafiar as convenções de seu tempo amando demais, gozando do próprio corpo e recusando, muito obrigada, o véu de recato especialmente bordado em nosso solo aurífero. Enquanto o leitor acompanha a trajetória de Ângela, sempre em contagem regressiva para o escorrer do sangue, Gabeira convida as outras, que parecem puxar um banquinho e prosear sobre seus fados.
D. Beja é raptada por um português obcecado pela ideia de possuí-la, Chica da Silva vive por seu amo e esposo, o contratador João Fernandes, Olímpia de Ouro Preto enlouquece entre a neblina da cidade, Tiburtina cai na política e nas armas. Mulheres que no Planeta abalaram a ordem, mas delinearam o progresso. Ingenuidade pensar que a fêmea foi bibelô aqui e em qualquer outra terra. Agarradas a espartilhos ou aventais, conspirarmos revoluções que a crônica dos machos, muito ocupada com o poder de seu falo, não imagina.
O texto é uterino. Durante e especialmente após a leitura, o sangue a dançar veias fala mais alto. Reclamei a minha descendência – no ventre dessas mulheres, na luta dessas mulheres, na herança dessas mulheres eu também fui gestada. Sinais de vida, sim, estamos muito vivas: prontas para a luta que vier.