Mecânica aplicada -

    Nuno Rau

    Editora Patuá
    2017
    88 páginas
    2h 56m
    ISBN-13: 9788582973745
    Português Brasileiro

    Nuno Rau é carioca, arquiteto e professor de história da arte, mestre e doutorando em história da arquitetura, e tem poemas publicados em revistas e sites como Cronópios, Germina, Sibila, Zunai, Mallarmargens, Diversos e Afins, RelevO, em diversos blogs e nas antologias Desvio para o vermelho (13 poetas brasileiros contemporâneos), pelo CCSP | Centro Cultural São Paulo, Escriptonita: pop/oesia, mitologia-remix & super-heróis de gibi, que co-organizou, e 29 de Abril: o verso da violência, ambas pela Editora Patuá. É editor da revista eletrônica mallarmargens.com, em conjunto com Alexandre Guarnieri e Mar Becker. O livro Mecânica aplicada foi finalista do Prêmio Jabuti 2018.

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    Alexandre Kovacs12/10/2018Resenhou um livro
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    Nuno Rau - Mecânica Aplicada

    Editora Patuá - 150 Páginas - Projeto Gráfico, capa e design: Pepe Donato e Italo Freitas - Lançamento: 2017. O carioca Nuno Rau é um dos finalistas do Prêmio Jabuti 2018, categoria Poesia, com esta coletânea de poemas, Mecânica Aplicada, que insinua no título e na capa uma improvável conexão entre a cultura e a máquina. Bem, posso garantir, por experiência própria, que engenheiros e arquitetos não são insensíveis ao apelo da arte e que também ocorre muitas vezes da poesia se inspirar nas ciências exatas, mesmo que seja para subverter os mecanismos da realidade e encontrar um sentido – por meio da subjetividade da palavra – que justifique a existência do homem no mundo. Como Nuno Rau destaca na sua apresentação e nas epígrafes, o grande tema da Máquina do Mundo é recorrente em muitas obras na literatura, de Luís Vaz de Camões até Carlos Drummond de Andrade e, continuando de forma despretensiosa (como bom poeta), o autor explica o seu falso método de conversão que oculta um objetivo bem subversivo, como é a responsabilidade de todo artista que vê além das engrenagens: "aqui não se deseja mais do que arriscar uma mecânica aplicada, um aperto dos parafusos mais visíveis, a regulagem das velas, a verificação do nível de água no sistema de refrigeração do motor – ajustes que visam à subversão da máquina, claro, como se poderá ler." Na primeira parte, "subversio machinae (manual)", os poemas se inspiram na tecnologia e o poeta atua como uma espécie de hacker, ótima definição do também poeta Alexandre Guarnieri no posfácio dessa edição. Os títulos dos poemas incluídos nesta seção são uma prova flagrante da intenção do autor de entrar no sistema e entendê-lo a partir de dentro: tutorial, touch screen, firewall, rede, touch pad, pay-per-view, r.a.m., trilhas, reset/lyserg, looping sufi, r.e.m. e manual técnico da dispersão. O poema de abertura do livro, tutorial, que destaquei abaixo, já deixa claro: "é preciso quebrar os espelhos", mesmo que seja "cortando os pulsos": tutorial não é um espelho o mundo, nem moído, cerol colado na meada dos dias que se desenrolam com a goma do espanto, isso que arranha sua pele, arranca a pátina dos gestos, fatia o real em lâminas, películas projetadas sobre um fundo áspero, árido, turvo, se você descreve lentamente ao longo de uma órbita marginal palavras que não limpam a barra do mundo, ele não é um espelho, nem moído, sua farofa seca servida na ração diária, não é mesmo qualquer coisa em que você se reconheça, meu chapa, por isso escreva num livro o inventário de técnicas para quebrar os espelhos, agredir os espelhos violentamente, mesmo cortando os punhos, os pulsos, erradicar os artefatos da ilusão. Já na segunda parte, "fenomenologia dos materiais", uma visão do cotidiano nas grandes cidades como em "sábado em Copacabana" (talvez só quem more em Copacabana entenda a beleza deste poema), "o que é a poesia?" e "boletim de ocorrência". Fico com o épico "cinco ou seis maneiras de se perder na cidade" com o seu tom de universalidade e atemporalidade que vai se espalhando em verso livre, enquanto passamos pelo Livro dos Espíritos e o Breviário das Horas em busca de uma chave. cinco ou seis maneiras de se perder na cidade você tem cinco ou seis maneiras de se perder na cidade Numa delas o Livro dos Espíritos é um oráculo tatuado em braile na pele de meninas mestiças que dançam nuas sobre lençóis grená um cântico sufi enquanto o sentido arde em suas vísceras e seus pés escrevem um livro chamado motel nosso lar Em outra o labirinto de memórias detona a dessublimação feroz que você rasura no Breviário das Horas, estação por estação, como se isso criasse qualquer âncora entre você e o mundo E ainda uma que repete ao infinito a metamorfose em que diante do abismo você é um poema escrito numa língua morta cujo último verso esconde uma chave As outras não interessam Na parte final, "mecânica aplicada", o uso da construção em forma de sonetos nos mostra como não deve haver limites para a poesia em suas múltiplas expressões, mesmo utilizando o rigor das técnicas clássicas e por que não? Aqui novamente o retorno ao tema principal, a subversão da máquina: "mecânica aplicada ao obscuro trabalho do motor, sua falência calculada pelos versos, areia no engenho, vidro moído na veia." epílogo [moto perpétuo] capturado o metro mais exato que peregrina por quatorze versos linha por linha como se num terço rezasse a um Dionísio estupefato diante do que pode ser um pacto com o anjo decaído mais perverso que fez da forma fixa o endereço da sede que não cessa e do seu rapto do sentido que leva ao infinito motor que nasce em mim e recomeça no verso quinze o um de um novo ciclo gerando ao fim a dúvida concreta: "um dia estes sonetos reunidos vão ser as suas prosas incompletas?"

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