A moça do internato -

    Nadiêjda Khvoschínskaia

    Zouk
    2017
    168 páginas
    5h 36m
    ISBN-13: 9788580490534
    Português Brasileiro

    Quais eram as perspectivas da mulher na Rússia, na segunda metade do século XIX? Como era retratada a mulher na literatura russa naquela época? E, sobretudo, como era essa representação, elaborada por uma escritora? Em sua novela "A moça do internato" (1861), Nadiêjda Khvoschínskaia traça uma imagem histórico-sócio-cultural da Rússia de então, que passava por mudanças significativas, recriando em sua narrativa a tensão entre o espaço delimitado pela sociedade patriarcal e suas convenções para a mulher - a educação (formal ou doméstica) para se submeter, a casa ou o campo, o casamento - e a promissora transformação da personagem feminina, tanto a ficcional e sua parte na História, rumo à insurgência em busca da emancipação. Em um contexto em que a imposta (pre)dominância masculina na sociedade e na literatura cerceava mulheres de se sobressaírem, e, mesmo entre os "progressistas", criavam-se verdadeiros tratados sobre a mulher sem lhe dar espaço real, enquanto ela pensava, escrevia, criava, lutava, silenciada, Khvoschínskaia antecipa a crítica social em relação à subjugação das mulheres e expõe a possibilidade da mulher que transpõe a ordem vigente e desafia a sociedade patriarcal, construindo, antes de autores russos consagrados, uma personagem que, acima de tudo, traz o potencial de transformação dentro de si. A metamorfose de Liôlienka (protagonista, e, sobretudo, criação artístico-literária de uma mulher), que, no processo de conscientização de sua força transgressora para conquistar a liberdade por si só, mostra sua voz própria, rompendo inclusive com seu vacilante mentor instrumento, Veretítsin - constitui uma metáfora da luta das mulheres por uma verdadeira emancipação, na prática, ao longos dos séculos.

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    Bookster Pedro Pacifico01/03/2020Resenhou um livro
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    A moça do internato, Nadiêjda Khvoschínskaia – Nota 9/10

    Primeira obra escrita por uma escritora russa que leio! É um livro curto, com uma narrativa fluida e que consegue envolver o leitor. Escrito em 1861, “A moça do Internato” conta a história de Liôlienka, uma garota jovem, boa aluna e nascida em uma pequena cidade do interior da Rússia. Sua juventude é contada a partir do contexto da época em que vive, em que as mulheres têm um papel pré-definido na sociedade patriarcal: casar, cuidar da casa e dos filhos e respeitar as ordens do marido. Apesar de ser uma filha obediente, seus comportamentos começam a mudar após conhecer seu vizinho, Veretítsin, um homem solitário e que foi mandado para essa pequena cidade do interior por seu comportamento de “rebeldia” aos valores tradicionais. Em suas conversas, o vizinho passa a brincar com a ingenuidade de Liôlienka, assumindo quase um papel de mentor. Veretítsin questiona as regras tão rígidas que a garota estava acostumada a seguir: estudar, cuidar da casa e dos irmãos, e aprender tarefas dignas de “boa esposa”. E esses diálogos, extremamente interessantes, despertam na protagonista conflitos internos e perturbadores, principalmente para uma jovem que mal sabe lidar com seus sentimentos. Esse seu amadurecimento tormentoso me lembrou bastante a trajetória de Virgínia, personagem marcante construída por Lygia Fagundes Telles em “Ciranda de pedra”. A leitura fica ainda mais rica quando se percebe a coragem que Nadiêjda teve ao escrever uma obra com um discurso de emancipação da mulher em plena Rússia conservadora do século XIX. Apesar de um final não tão surpreendente, a autora conseguiu deixar clara a sua intenção de usar a literatura não apenas como entretenimento, mas também como um veículo de disseminação de crítica e insatisfação social. A edição da @editorazouk , com tradução direto do russo, conta com um excelente prefácio do tradutor Odomiro Fonseca sobre o contexto histórico em que a obra foi publicada. Ou seja, uma incrível obra sobre o papel da mulher em plena Rússia do século XIX e, o mais interessante, sob a perspectiva de uma poderosa e jovem estudante de uma cidade do interior.

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