A redação desta obra data de 1633. O tratado poético-pictórico de Manuel Pires de Almeida principia com uma afirmação que recusa qualquer visada idealista: ´Grandes são as proporções que têm a tinta e a cor, a pena e o pincel´ porque ´quando se escreve, se pinta e quando se pinta, se escreve´. Essa é a chave de compreensão do tratado, no interior da perceptiva acerca das artes pictóricas e poéticas do século XVII. A semelhança de instrumento material entre a pena, o pincel e suas tintas condensa todas as demais semelhanças - de causa, de efeito, de meios, de qualidades - conferidas às duas artes. Pois, a partir da similitude entre a pena e o pincel, afirma-se que as propriedades de uma aplicam-se à outra. Afirma-se que ambas têm a mesma causa, a imitação das ações humanas. Afirma-se que usam dos mesmos artifícios, versam sobre as mesmas coisas, visam aos mesmos efeitos e são efetuadas por artífices que se assemelham. Essas homologias permitem que o Poesia, e Pintura, ou Pintura, e Poesia termine com um ´tratado do misto de pintura e de poesia´, em que Almeida classifica as espécies figuradas que realizam o conceito, combinatória de palavra visível e pintura legível - noção central da poética dos séculos XVI e XVII.
