Para você querer ler
Um romance histórico que apresenta ao leitor as dificuldades enfrentadas para a construção do Ferrocarril de Panamá, ferrovia interoceânica que liga os Oceanos Atlântico e Pacífico no istmo do Panamá. O escritor panamenho David Morgan mescla ficção e realidade e conta com personagens reais como o empresário norte-americano William H. Aspinwall, idealizador do projeto; o escritor John Lloyd Stephens, presidente fundador da Panamá Rail Road, e o engenheiro George Muirson Totten, responsável pela obra. Sem eles a concretização de tal façanha não teia sido possível. Contudo, o autor não se esquece de homenagear os milhares de trabalhadores vindos de todas as partes do mundo cujas vidas foram perdidas durante a construção da ferrovia. O ano é 1848. Nesse período, o território da Califórnia pertencia ao México. Com a assinatura do Tratado de Guadalupe Hidalgo, em 2 de fevereiro de 1848, o território californiano foi cedido aos EUA. De acordo com Morgan, em dezembro daquele ano, o presidente dos EUA, James K. Polk, levou a público um informe oficial do Exército. “Una semana después se había iniciado la estampida humana hacia Califórnia”. Então, teve início a “corrida do ouro”, período de migração precipitada e massiva de trabalhadores para as áreas do oeste norte-americano, onde houve um descobrimento espetacular de quantidades comerciais de ouro. De acordo com a História, nesse período surgiram ‘cidades fantasmas’, pois todos embarcaram rumo ao Eldorado. Esse fato acabou transformando o istmo do Panamá num ponto estratégico. Nesse contexto, a construção da ferrovia interoceânica mostrava-se um negócio vantajoso, como descreve essa passagem do livro: “Tu ferrocarril transportará a todos los que desde la costa Este quieran ir a hacerse ricos de la noche a la mañana y los traerá de vuelta cargados del precioso metal. En lugar de un caballo de hierro vas a construir un caballo de oro”. Depois da aquisição de Alta Califórnia, em 1848, e o crescente movimento dos colonos à costa oeste devido à ‘febre do ouro’, visando garantir uma conexão segura e rápida entre os oceanos, o Congresso americano autorizou o funcionamento de duas linhas de buques de correio: uma desde Nova Iorque a Chagres (rota Atlântica); e outra desde Orégon e Califórnia até a Cidade do Panamá (rota do Pacífico). A ferrovia foi construída a partir de Manzanillo (mais tarde denominado Aspinwall, em homenagem ao empresário), uma ilha pantanosa localizada em Navy Bay. O projeto foi iniciado em 1850 e David Morgan descreve de forma magistral o enfrentamento dos variados desafios pela equipe responsável pela construção da ferrovia: os assaltos de bandoleiros nas vias; a falta de recursos financeiros; as chuvas torrenciais durante quase todo o ano. Contudo, o maior desafio foram as doenças tropicais (febre amarela, malária, cólera), que vitimaram milhares de trabalhadores, inclusive o próprio presidente Stephens (falecido em 1852, vítima de malária). A morte era uma presença constante obrigando a empresa a estar sempre repondo mão de obra, trazendo pessoas de todas as partes do mundo para dar continuidade ao projeto. Por fim, em 28 de janeiro de 1855, a primeira locomotiva de passageiros atravessou o istmo de mar a mar. Em seu relatório final, Totten contabiliza com sensibilidade não apenas os dólares investidos, mas as pessoas que deram sua vida para tornar a obra realidade: “Como pueden observar… el costo aproximado de la obra ascendió a ocho millones de dólares. Debo señalar, sin embargo, que aparte del costo financiero, la obra ha tenido un costo en vidas humanas y en dolor imposible de medir. En nuestros cementerios se cuentan por miles los seres humanos que vinieron al istmo de todas partes del mundo a trabajar en la portentosa obra del ferrocarril interoceánico (…) en cada rincón del planeta seguramente existen familias que aguardan el regreso de sus seres queridos, ignorantes de que su espera es inútil. Quienes tuvimos la responsabilidad de construir el ferrocarril de Panamá comprendemos que si bien algún dia no muy lejano el dinero invertido en la obra por los accionistas producirá réditos cuantiosos, la pérdida de capital humano jamás podrá ser recuperada”. E, em meio a toda essa descrição histórica, o escritor David Morgan presenteia o leitor com o ‘diário de Elizabeth Benton’, em que a personagem conta a linda história de amor que viveu em meio à selva panamenha. Elizabeth chega ao Panamá, torna-se voluntária do hospital montado pelo dr. Totten e narra a constante presença da morte e como isso acaba por ‘endurecer’ aqueles que convivem com essa realidade. E, mesmo temendo por sua vida, ela decide permanecer em Manzanillo, para ficar perto do seu amor.
