A Globalização Imaginada -

    Néstor García Canclini

    Iluminuras
    2018
    268 páginas
    8h 56m
    ISBN-13: 9788573214642
    Português Brasileiro

    Depois de duas décadas em que a globalização foi declarada como destino inevitável da modernidade, começa a estudar-se a variedade de intercâmbios, desencontros e desigualdades que provoca. Não a imaginam do mesmo modo o gerente de uma empresa multinacional, os governantes de países centrais ou periféricos, migrantes multiculturais ou artistas que buscam ampliar sua audiência. Somente alguns poucos políticos, financistas e acadêmicos – sustenta Canclini – pensam em uma globalização circular. O resto imagina globalizações tangenciais: com os que falam o inglês, com nações da própria região ou em acordos de livre-comércio para se protegerem da concorrência generalizada. Junto à homogeneidade gerada pela circulação de capitais e bens, emergem as diferenças culturais. Não como simples resistências ao global. O autor explora, a partir de uma vasta bibliografia que inclui a já consagrada e a mais recente, como mudaram as aproximações e discrepâncias entre Europa, América Latina e Estados Unidos. Com cifras e dados novos compara os modos distintos de como se globalizam as finanças, a cidadania, as artes visuais, as editoras, a música e o cinema. Examina as ambiguidades que escondem as metáforas empregadas para se falar de conflitos de fronteira e analisa o humor nos mal-entendidos interculturais. Mas este não é só um livro sobre a globalização; propõe, ainda, como renovar os estudos culturais – dialogando com a antropologia, a sociologia e a economia – para reconstruir um pensamento crítico. Pergunta-se sobre o quê fazer para que os intercâmbios globais não sejam gerados apenas em lobbies de empresários e, sim, deslocando-se para a esfera pública na perspectiva da construção de uma cidadania mundial. A posição destacada de Néstor García Canclini no quadro intelectual latino--americano foi reconfirmada em 2002 quando lhe foi concedido o “Prêmio de Ensaio Literário Hispano-Americano Lya Kostakowsky”, da fundação mexicana Cardoza Aragón, por um estudo de sugestivo título: Latino-americanos buscando lugar en este siglo. Seu lugar nestes últimos cem anos Canclini já encontrou. Antropólogo de formação, contribui com originalidade para a renovação dos estudos da cultura no hemisfério e fora dele. E o faz rompendo com o velho hábito sociológico de sempre tudo analisar, neste domínio, sob o ângulo do poder e da dominação, empreitada com frequência marcada por tons apocalípticos e impasses teórico-práticos não raro falsos e imobilizadores e desde cujo ponto de vista a única ação frequentemente possível é a acusação que se encerra em si mesma. Não insistindo em considerações políticas já conhecidas, e por isso mesmo conseguindo um impacto político ainda mais incisivo quando se trata de discutir-nos, a nós de América Latina, em nossa tripartida figura de “produtores, migrantes e devedores”, como ele tem feito, Canclini busca antes entender o processo cultural de seu tempo e repensar os modos de fazer arte, cultura e comunicação nesta difícil fase da aventura humana. Ele mesmo um intelectual, digamos, globalizado, num ano típico Canclini (um argentino residente no México) pode ser visto e ouvido por toda parte na América Latina e outros cantos do mundo, dando prova de que também é feito de aspectos positivos o atual fenômeno da globalização – esse “objeto cultural não identificado”, como ele escreve, aqui examinado sob múltiplos aspectos. A busca da identidade, pessoal e nacional, num drama estéril de que não acabamos de nos livrar ou no qual ainda insistem em nos jogar; o mercado e a interculturalidade; a cidade global e a “antropologia dos mal-entendidos” são alguns dos temas tratados por Canclini em volume costurado por fino senso de humor (algo inesperado, porém de todo pertinente num livro sério) e escrito em estilo que o torna uma bela peça de literatura, dando razão ao bom gosto de seus recentes premiadores. Teixeira Coelho

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    Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa picture
    Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa12/08/2010Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    O filósofo e antropólogo argentino Néstor García Canclini, em "A Globalização Imaginada", fez para o entretenimento = da era da globalização uma análise que pode ser comparada à do italiano Franco Moretti quando trata da literatura da era da construção do Estado nacional em "Atlas do Romance Europeu". O foco da imaginação – expressa agora menos no romance do que nas obras audiovisuais – e seu protagonista é menos cidadão que migrante. Músicas fundem tradições outrora distantes, filmes são produzidos em cenários multinacionais. As pessoas situam sua fantasia em múltiplos cenários ao mesmo tempo e desenvolvem identidades culturais mais plurais e menos relacionada com territórios específicos. Ao contarem histórias, precisam imaginá-las fora de si e para outros e multiplicam as metáforas, reservadas pelos romancistas europeus, como mostra Moretti, aos raros momentos em que se cruzavam fronteiras nacionais e sociais. Canclini mostra que (como a nação), a globalização não uniformiza tanto quanto se pensa – pelo contrário, acentua a distinção entre centro e periferia. Os fluxos têm direções e cenários preponderantes: partem dos Estados Unidos (principalmente Nova York e Hollywood) e o Japão e, em menor grau, da Europa. Mas o autor também assinala que a indústria do entretenimento em massa (ao contrário do romance), dá pouco espaço a seriedade e compromisso. Por procurar a obsolescência acelerada, não sedimenta tradições. Como só busca a satisfação, não gera sentido, nem vínculos entre sujeitos. Em razão de exigir rentabilidade, não gera a inovação social que pressupõe diferenças, resistências e dissidências não-funcionais. Esconde as desigualdades de acesso à cultura e os pontos de atrito e simula a proximidade do outro sem tentar entendê-lo. É evidente que a globalização, mais ainda que a nação, pede para ser edificada no imaginário, por ser grande demais para ser abarcada pelos sentidos. E é preciso concluir que, em comparação ao estado nacional do século XIX, está muito mais mal servida – e que, se depender de como está a ser elaborada no imaginário dos povos, será necessariamente muito mais precária.

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