Somos a única espécie do planeta que pode ser considerada racional. Quanto a isso, nenhuma outra é capaz de fazer qualquer objeção. Mas e se pudesse? Será que discordaria da forma como estamos acostumados a nos enxergar, e se negaria a nos reconhecer como seres superiores? Será que zombaria de nossa pretensão, achando-se no direito de reivindicar para si o título que ostentamos? Ou simplesmente olharia para nós com expressão de desprezo e nos ignoraria? A meu ver, esta última suposição é a que teria a maior probabilidade de ocorrer. Uma civilização idealmente bem-sucedida não é aquela que produz alta tecnologia, algo que fomos levados a crer por estarmos vivendo em uma sociedade tecnicamente avançada. Ledo engano. Sociedades destituídas de racionalidade como a dos insetos comunitários são belos exemplos de funcionalidade e de harmonioso convívio. Ao contrário de nossa espécie, que precisou passar por um upgrade cognitivo para se adaptar à vida na Natureza, todas as demais se ajustaram com perfeição aos seus nichos ecológicos muito antes de nos convertermos em bípedes cheios de si. A tecnologia responsável por tornar possível a sobrevivência da raça humana, desenvolvida há cerca de 6 mil anos, segundo a ortodoxia científica, é um recurso natural para elas. Algumas a exibem em seus exoesqueletos e em seus mecanismos de auto defesa. E nenhuma delas jamais apresentou qualquer tipo de comportamento que denotasse algum sinal de orgulho. Inconscientemente essas espécies parecem saber que é tolice se orgulhar de quaisquer características que lhes sejam inatas. Em contrapartida, o ser humano costuma jactar-se de uma qualidade que de modo algum lhe é inata. Não foi o esforço coletivo que atiçou o brilho da inteligência na humanidade. Mas mesmo que o mérito nos coubesse, os malefícios têm superado em grande medida os benefícios trazidos por essa aquisição. Somos uma espécie relativamente nova, isto é verdade, porém, com tantos tropeços ao longo do percurso, seria o caso de nos perguntarmos até quando permaneceremos de pé. E o mais relevante: se é de fato tão vital permanecermos de pé. NADA - Introdução ao Desalento levanta uma série de questões nesse sentido. Da importância que imaginamos ter neste planeta à real insignificância de nossa existência; do contraponto entre a esperança num futuro progressista e o evidente retrocesso de algumas visões de mundo atuais; a ilusão perene da fé, independente de dogmas religiosos ou axiomas científicos; a possibilidade de não sermos os verdadeiros governantes do mundo - como gostamos de pensar que somos -; as chances de estarmos aqui há mais tempo do que se supunha - o que é deprimente pois tivemos um número maior de oportunidades de crescermos como seres pensantes e não soubemos aproveitá-las-; a certeza de que nosso destino jaz à mercê da próxima extinção em massa, venha de onde vier... Ciência, tecnologia, religiosidade, ateísmo, mitologia, ufologia, teorias conspiratórias e cultura pop (música, cinema e histórias em quadrinhos) servem de base para esta reflexão socioantropologica que tem como foco os efeitos da passagem do Homem sobre a Terra.
NADA - Introdução ao desalento
Rinaldo Leriano
Kindle
2018
295 páginas
9h 50m
ISBN-10: B07DW4M27W
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