Livro de poemas subdividido em cinco seções: Vida, Amorosidades, Feminilidades, Guardados e Realidades.
Livro de poemas subdividido em cinco seções: Vida, Amorosidades, Feminilidades, Guardados e Realidades.
Com dois livros publicados, Laura Rangel é uma escritora que movimenta a cena cultural da capital gaúcha. Realiza em Porto Alegre, desde ao ano de 2012, a Roda de Leituras Laura Rangel, frequentada por um público bastante heterogêneo, composto por escritores, leitores, críticos e formadores de opinião, com grande diversidade etária. Embora escrevesse há muitos anos, estreou na literatura apenas em 2015 com o livro Bonecas Russas (Editora Bestiário), composto por 63 poemas e que foi apresentado pelo poeta Paulo Betancour. Em seu livro mais recente, Agridoce (Editora Pradense, 2018), Laura Rangel nos apresenta um passeio pela memória e pela metalinguagem. Em cena, a passagem do tempo, as perdas que se acumulam em uma vida longa e a reflexão sobre o sentido de escrever. A publicação dos poemas de Laura se deu na idade madura: depois das graduações em Letras e em Artes pela PUC, depois dos longos anos dedicados à psicopedagogia clínica, depois da psicanálise, depois dos filhos, da viuvez e dos netos. Foi quando a poeta reabriu suas gavetas e decidiu que estava na hora de mostrar ao público essas palavras há tanto tempo guardadas. É assim que no poema A cigana disse, que abre o livro, a poeta é indagada sobre o que acontecera aos seus versos, ao que ela responde: guardei em gavetas / fui pela vida afora / sem dizer palavras Esse tema é tão importante para poeta que, tendo aparecido em Bonecas Russas, retorna com mais vigor em vários poemas de Agridoce, como é o caso de Gaveta. Os espaços e ocupações habitadas por seus poemas são aquelas tradicionalmente relacionadas ao trabalho doméstico feminino: a cozinha, os bordados, o tricô. A poeta diz que enquanto bate as claras em neve, traça “inacabados rascunhos da vida” e vê surgir poemas reais em “momentos comuns/ sobre a chaleira d´água / ou a panela no fogão / o xarope para a tosse”. Em tom confessional, sua poesia nos fala das experiências com o amor, a maternidade o envelhecimento e a finitude, temas profundamente marcados pela sua condição de mulher. Em Restos, a poeta diz: nas rugas a contar os choros / risos e as tristezas que / as marcas deixaram / nas gavetas / bilhetes secos / como vai longe a vida / nunca pensei / como um dia chegaria / neste tempo / de meu tempo. Em Fotografias, ela nos fala da maternidade através de uma bela imagem: no baú encontrei o que guardado ficou / pontos e nós de sangue / os bordados e costurados / atados de ervas / e galhos secos / de minha descendência que amarelada / em sépia ficou. Em Envelhecimento, a partida dos que lhes são caros lhe dá a dimensão da preciosidade dessa vida: o tempo passando/ preciosos tempo de vida / a nos transfigurar /vamos mudando / murchando escoando / músculos e dentes / a sensação de finitude / perpassando pela morte / do amigo e da amiga / por todo o corpo. Em tom intimista, Sabores nos convida a um passeio por espaços marcados por ausências: assim vou à cozinha da casa / passo pela sala de jantar / sinto todos os cheiros / degustando sabores arcaicos / que neste grande silêncio ontem / e o agora à soleira da porta, se perfaz / as conversas que não escuto mais. Se o poema quer desautomatizar a linguagem, também quer desautomatizar o olhar sobre o cotidiano. A poesia de Laura Rangel, feita de minúcias e delicadezas, é bela, tocante e no faz contemplar a vida sob novas perspectivas. (Lindevania Martins, para o blog Bookfilia)

