Vergílio Ferreira, escreve esta obra literária usando João Vieira como portador de uma mensagem sobre o corpo, mais precisamente o estado do mesmo em novo e em velho. Sendo o tema do livro o corpo humano. O narrador fala ao ouvinte, sobre aquilo que o corpo era na sua juventude e na sua velhice. Dando uma excelente reflexão sobre a vida, apelando aos sentidos da mesma, a necessidade de se viver um dia de cada vez, sem pressas, o destino final do nosso corpo e o fio da vida já têm um destino marcado, e nunca se sabe o momento da chegada. Existindo, uma finalidade para o romance de Vergílio Ferreira, falar ao leitor sobre o corpo. De tudo aquilo pelo qual ele passa e enfrenta. Os momentos bons e maus. Para no final sermos reduzidos a pó. A obra contém vinte e seis capítulos, existindo um primeiro nível narrativo, sendo este o principal, pois ao lermos percebemos exatamente como é a vida do narrador no lar de repouso. No primeiro nível narrativo, é apresentado ao leitor o senhor João Vieira, que vai narrando à Mónica, sua falecida esposa, como é o seu cotidiano, divaga sobre os variados assuntos filosóficos que o peso do corpo sentido por pessoas mais velhas, lhe trazem à memória. Já no segundo nível narrativo, o que é revelado ao leitor é o passado de João com Mónica, onde é o próprio que vai lembrar à falecida amada a sua história em conjunto. Como se conheceram, os momentos bons e maus do casal, os três filhos que tiveram em comum, o Teodoro, André e a Márcia. Como também quando João cuidou de sua esposa nos inícios de sua morte. Existe uma mistura, ou seja, alternância entre estes dois níveis narrativos, com o narrador a relatar o que se passa no presente, ou seja a sua vida no lar e as suas reflexões. E ao mesmo tempo misturando com o passado vivido ao lado de Mónica. Essa mistura de tempos pode ser vista em praticamente todos os capítulos. É possível através de três pertences do senhor João, perceber como funciona a nossa vida, e o nosso corpo ao longo do tempo. Os objetos são, uma estampa de um fresco de pompeia, que contém um desenho da Deusa Flora, um desenho do artista alemão Dürer, e por fim uma estátua de Cristo. Cada um tem a sua importância para João. O narrador acaba por usar estes mesmos pertences para refletir sobre o corpo. Cada um representa uma linha temporal da vida. Sendo a Deusa Flora o passado, o Cristo o presente, e o Desenho de Dürer o futuro. Os três estão em tríptico no quarto do narrador. Pode-se usar cada um destes objetos para explicar os sentimentos e reflexões de João sobre cada linha temporal. Por exemplo a Deusa Flora, está ilustrada como algo leve, parece que flutua, com um vestido como se estivesse a escorregar e uma beleza sobrenatural. O que leva o personagem principal a refletir sobre o quanto o seu corpo era leve, sem pesos, sem dores que tivesse de carregar. Ou melhor, o quanto o corpo de Mónica era cheio dessa juventude bela. O ser dócil, a sensualidade do corpo no vestido a cair, e a beleza que terá um fim, mas que naquele momento é tão poderosa, que é praticamente eterna. Tudo isto de um passado, cheio daquilo que pertence à juventude das pessoas. Depois chegamos ao presente, onde o Cristo, exposto no quarto deste senhor, é o reflexo de João, até na sua perna amputada, retirada do seu corpo um pouco antes de ir para o lar. Ao olhar para Cristo ele não pensa só no seu corpo atual, pesado, desgastado em um estado de precariedade. Pensa também no sofrimento que ambos sentem, a nível emocional, o estar só no mundo. A solidão, e a humilhação do seu quotidiano em um lar de repouso, que o atinge de todas as formas. Os seus filhos mal o vão visitar, e sem Mónica a vida torna-se mais só. O corpo de ambos está em farrapos, Cristõ acaba por ter o proveito e conhecimento, já a João Vieira resta ser acompanhado pelo seu interior cheio de solitude. Nesta viagem temporal, que é feita pelas reflexões presentes no romance, o destino final é o que acaba por fazer Vieira rir. Vale mais rir do que chorar, pelo menos é o que costumam dizer. O desenho macabro feito pelo Dürer “Morte coroada e a cavalo”, é motivo de risadas pelo autor. Pois o cavalo e a morte, estão simbolizadas como esqueletos. Algo para assustar crianças, mas para o narrador a morte representada através de uma geringonça articulada da ossaria, não é motivo de medo. A morte está presente na vida. É sentida em vida, ele próprio viu, através de sua falecida esposa, quando no primeiro instante ele percebeu que ela estava doente, e quando a cuidou já velha, onde por fim acabou por a ver descansar. Aí sim está a morte. João usa este desenho para se rir do seu futuro, não ter medo dele. Desafiar a morte enquanto a mesma não aparece. Acham-se ainda mais episódios que conseguem resumir o momento da vida em que João se encontra, as consequências que isso têm para ele. O infantilismo e a humilhação ao tomar banho, são sentidos por ele. Como se estivesse nú, não só fisicamente, mas também uma nudez interior, revelando o modo como o tratam, como se já não fosse ninguém. Como se aquilo para o qual estudou, e para o qual trabalho não o tivessem feito uma pessoa. Sendo apenas um simples bebé aos olhos de quem o cuida no lar de repouso. No capítulo quatro é bastante visível o ambiente e sentimentos que o narrador encara naquele momento. A possibilidade de viajarmos pelos olhos deste narrador autodiegético é imensa, no capítulo quatro, para além de o acompanharem na humilhação que sente ao tomar banho, leva-nos a viajar pela memória que teve de sua mãe a dar-lhe banho, memória provocada pela infantilização utilizada por quem o banhava, onde a cuidadora se dirigiu a ele como se estivesse a dar banho a uma criança e não a um homem adulto. A escrita pertencente a este livro deixa a pessoa que o lê, por vezes confusa, com um sentimento de inacabamento de falas por parte do narrador, principalmente pelo corte de assuntos e frases incompletas. Percebe-se, devido a tal acontecimento, que o narrador está em diálogo com Mónica, sua falecida esposa. Sendo o livro maioritariamente marcado por uma linguagem mais coloquial, ou seja de conversa. Quem lê entende a comunicação com Mónica e percebe então o assunto que o autor quis passar aos leitores, tudo o que ele tinha a dizer sobre o envelhecimento do corpo, a sua fragmentação e precariedade. A juventude de ambos e o final dos dois. As reflexões ou melhor o produto final delas consegue tocar e mexer com quem se sente próximo ao assunto das mesmas. Já a forma como elas são feitas ao longo do livro, pode levar ao leitor mais desatento ou mais impaciente, a desistir do livro. Vergílio Ferreira, produziu um romance, capaz de fazer pensar, capaz de fazer agir o seu público mais jovem, para que ele aproveite o auge do seu corpo. Já para a audiência mais velha, as reflexões podem trazer na mesma um sentimento de atuação perante a vida, um desejo, até adrenalina de querer aproveitar ainda o muito que lhes resta. Talvez surja como um preparo mental, para a humilhação que pode vir a ser sentida, para o infantilismo recorrente das pessoas que cuidam dos mais velhos e ainda de eventuais dificuldades que se terá. Um entendimento mais profundo e melhor da condição do corpo humano, da sua precariedade, da solidão sentida, um entender do evento canônico, pelo qual quem não morreu cedo, ainda vai passar que é a velhice. Ps: Foi me pedido para fazer uma recessão critica a este livro pela universidade e decidi colocar aqui ;) Ps: Está em português de Portugal caso existe alguma confusão kkkk Guilherme Manuel
Em Nome da Terra (Obra Completa) -
Vergílio Ferreira
Quetzal Editores
2009
272 páginas
9h 4m
ISBN-13: 9789725647912
Português
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