1 / 1
Decidi ler “Um Mês no Campo”, do inglês J.L. Carr, quando o vi indicado pela Lua, que o descreveu como um romance de poucos acontecimentos externos, mas em que muita coisa se transformava no interior dos personagens – um dos meus tipos favoritos de livros. Publicado em 1980, é uma obra breve, e muito sutil, que nos transporta para o pós-Primeira Guerra Mundial, em um pequeno vilarejo inglês chamado Oxgodby. O protagonista, Tom Birkin, é um ex-soldado londrino que carrega cicatrizes físicas e emocionais do combate. Ele é contratado para restaurar uma pintura mural em uma igreja, e ao longo de um mês de verão, experimenta uma espécie de cura, enquanto se relaciona com os habitantes do vilarejo e com outro veterano da guerra, Charles Moon.
O romance tece, entre outras coisas, uma reflexão sobre o tempo e a memória. Birkin descreve esse período, em retrospecto, muitos anos depois. Às vezes, somente ao olhar para trás e recordar o que vivemos, nos damos conta do quão essenciais foram certas fases. Momentos em que simplesmente vivemos, passando por eles como passamos pelos dias, quase sem vê-los, quase sem perceber o seu peso e importância para o nosso desenvolvimento.
A restauração do mural serve como uma metáfora para a recuperação do próprio Birkin, que não se limitava a revelar a pintura escondida, mas se interessava, analisava a técnica empregada, intrigava-se com certas ousadias estéticas do pintor, especulava sobre as intenções do artista. Revelar a pintura instigava-o à curiosidade e à atenção, outras espécies de amor. E este amor foi habilitando o personagem a se abrir a outros contatos, a se permitir viver amizades, ser integrado na vidinha pacata dos camponeses, nutrir novos e revigorantes sentimentos. O autor, no entanto, destaca a natureza efêmera desses estados e conexões, sugerindo como são tanto preciosos quanto inevitavelmente passageiros.
A atmosfera do livro é melancólica, mas não sem esperança. Há uma sensação de perda, mas também de possibilidade, como se a vida estivesse oferecendo a Birkin, e por extensão a todos nós, uma segunda chance. Passaremos por muitas tormentas e desvios, mas também por oportunidades e surpresas. Carr nos convida a perceber a importância de se estar presente e sem pressa em cada momento, pois, quando menos esperamos, a beleza se revela, com seus mistérios e possibilidades.