Se você me acompanha em alguma rede social (menos no Facebook porque finalmente estou banindo esse buraco negro da minha vida) sabe que estive em Brasília nos últimos quinze dias em um congresso da minha área, mas o que você provavelmente não sabe é que durante esses dias, sempre que tive chance, fiquei lendo Infinitum, o livro de estreia do brasileiro Alexandre Bento (os viajantes de plantão que frequentam este blog bem sabem que e-books são uma dádiva divina para quem não quer levar mais do que dez quilos na mala). Terminei de reler esta história no final de semana, então cá estamos nós.
Disponível para download gratuito no site feito especialmente para a história, Infinitum traz as aventuras de uma turma de adolescentes que nos faz lembrar dos nossos dias de juventude, com os primeiros beijos que demoraram uma vida para acontecer, as travessuras e brincadeiras e, principalmente, a amizade verdadeira e duradoura. Obviamente, devemos observar as diferenças geracionais de quem nasceu nos anos 1980 (porque eu não sei você, mas nasci no começo dos anos 1990), mas ainda assim há o fator de familiaridade extremamente presente em seus capítulos.
Como sempre, manterei este texto livre de spoilers e me atentarei a aspectos que considero importantes para o desenvolvimento da trama e dos personagens. Então se você está curioso para saber mais sobre a história, essas são as linhas gerais: Alex é um adolescente apaixonado por Ana, ele e seus amigos (Evereste, Cris, Bruce, Pingo e Drago) vivem se metendo em aventuras pela cidade até que a morte de um de seus professores leva essa turma para a maior [e mais perigosa] aventura que eles poderiam encontrar – esta é uma história de amor, amizade e a possibilidade de uma outra dimensão e da vida eterna.
Para ser justa com a história, que possui pouco mais de trezentas páginas, me parece um bom plano dividir a trama em três partes: a primeira com o foco nas aventuras juvenis dos personagens; a segunda com a aventura principal; a terceira com o desfecho e as possibilidades de desfecho. O primeiro terço do livro traz o que podemos chamar de construção do contexto e apresentação dos personagens. Muita coisa acontece nas primeiras cento e poucas páginas, quando temos a chance de conhecer os ambientes da trama, a personalidade dos personagens e sua maneira de pensar – e também criar empatia –, mas a aventura central começa a ser construída no nono capítulo. No que estou chamando de segunda parte, vemos a aventura real (que estou chamando de central porque claramente há a necessidade de colocarmos tudo em categorias para este texto fazer sentido) e começamos a entender o propósito do livro – é aqui que os personagens começam a se desenvolver –, e aqui ficarmos curiosos com o que seu desfecho trará. Na terceira parte temos reviravoltas e cenas eletrizantes, é aqui também que devemos fazer a escolha que refletirá no final. Juntas, essas três partes constroem um enredo que consegue entrelaçar conhecimentos que temos sobre os planetas do nosso sistema solar com questões filosóficas e morais que guiam as ações dos personagens (e nossas respostas a eles).
Um ponto que muito me agradou foi a condução do desenvolvimento dos personagens, feito de forma gradual e sutil. Por razões óbvias, Alex e Ana são os personagens que mais se desenvolvem por estarem no centro da trama, mas Cris, Evereste, Bruce, Pingo e Drago também têm espaço para passarem pelas transformações dignas da adolescência. O que reflete também em seus relacionamentos: se no começo Alex era extremamente ansioso em tudo o que envolvia Ana (e principalmente com o primeiro beijo entre os dois), com o passar dos capítulos seus sentimentos pela moça vão se consolidando e, como consequência, sua abordagem amadurece. No que toca às amizades, as aventuras que vão se tornando cada vez menos inocentes e mais perigosas fazem com que a confiança entre os meninos chegue ao auge e comprovam que a amizade dele é inquebrável.
Outro ponto que despertou meu interesse foi a frequência de ação. Ainda que tenhamos várias cenas mais tranquilas e bonitas – principalmente as que envolvem Alex e seu interesse romântico –, as cenas frenéticas roubam a atenção e deixam o leitor ansioso para saber o que acontecerá a seguir. As aventuras têm um papel determinante na narrativa. Os mistérios e os códigos deixados pelo professor não teriam a metade de seu apelo se a todo momento Alex e sua turna não fossem obrigados a fugir, se esconder, procurar pistas, encontrar respostas e se virarem da forma possível para continuarem vivos.
São as aventuras que permeiam a trama e ditam o ritmo acelerado dos acontecimentos – ainda que tenhamos que entender muitas questões com o passar da trama, a cada novo capítulo os personagens se encontram envolvidos em algum momento de ação – e são elas, também, que sedimentam a amizade entre os personagens. E é por isso que, ainda que haja a construção de um romance delicado e bonito (e que o personagem principal, Alex, esteja constantemente pensando no amor de sua vida, Ana), a sucessão de coisas acontecendo a todo momento, e que fazem com que a confiança entre os personagens seja ou testada ou ampliada, faz com que esta seja principalmente uma bela história sobre o poder da amizade.
Como um enredo redondo e uma virada na trama que não esperamos – com mais de cem páginas para o final, o autor pega o leitor desprevenido e toma um rumo na trama que você terá que ler para descobrir –, Infinitum é uma boa estreia no meio literário. Suas poucas partes prolixas não afetam o desenvolvimento do fluxo narrativo, mas servem como um respiro em meio a tanta ação.
Antes de terminar este texto, não posso deixar de falar sobre os links das músicas citadas no decorrer da trama: toda vez que um trecho de alguma canção aparecer podemos clicar em cima da linha e abrir uma página com ela para a acompanharmos durante a leitura – este é um detalhe que pode passar despercebido quando lemos no celular ou Kindle.
A diagramação do e-book também ficou muito bonita, algumas de suas páginas são coloridas e os desenhos dos planetas no início de cada capítulo ficam muito delicados e completam a atmosfera proposta. De modo geral, a diagramação combina com a história, refletindo detalhes importantes da trama, como os já citados planetas, um casal jovem dançando nos pés das páginas e um mapa em dado momento da narrativa.
Esta é uma história cheia de detalhes e peças importantes que vão se juntando para finalizar em uma bela imagem. Vale e muito ler e escutar sua playlist.
***No livro temos dois finais possíveis para a história, mas em breve um terceiro final alternativo estará nos esperando no site da trama. Acesse http://livroinfinitum.com.br para conferir.