Pequenas histórias para serem devoradas
A vida sem disfarces -
Luiz Otávio Oliani
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Ver maisA vida sem disfarces no hospício do mundo - Alouuuu!!! Repeteco de resenha para quem não havia lido ainda.
O escritor Luiz Otávio Oliani é poeta com significativa trajetória de 13 livros publicados, várias premiações literárias e participação em inúmeras coletâneas. Em “A vida sem disfarces”, seu mais novo livro, envereda pelo gênero da prosa em uma de suas mais difíceis modalidades, a do miniconto que em linhas gerais se caracteriza por oscilar de algumas palavras até uma lauda, e visa uma narrativa com o mínimo de recursos, destinada a causar efeito imediato no leitor. E como causam! A grande maioria dos textos reunidos são descarnados, sintéticos, sem admitir composição literária mais elaborada, parecem fichas cadastrais, resumos microfilmados de certas vidas. Uma técnica que consiste na abordagem franca, sem rebuços, de uma realidade que desce a detalhes de existências onde o sofrimento, e a miséria física e moral assumem uma condição de fatalidade inevitável. Que é o que realmente tende a se generalizar em nossos dias, onde os princípios éticos e morais parecem custodiados pela permissividade generalizada e de que são exemplos os textos “Quinze aninhos despudorados” e “O tarado”. Os textos reunidos traduzem a glorificação do real em sua maior crueza. Um realismo cegante ou, por outra, “a vida sem disfarces” que provoca no leitor deslumbramento, mas também, em alguns casos asco, porque focalizam seres humanos que vivem em estado de brutalidade, guiados por instintos e fatalismos cegos, minados por legados atávicos, sobretudo em relação ao sexo, Criaturas armadas contra si próprias e o seu semelhante. De fato, os temas por serem fortes e engrossarem o pesadelo cotidiano, falam por si mesmos porque suficientemente expressivos para que o ficcionista se empenhe em justificá-los literariamente, em explicar-se com todas as letras e todos os verbos. Dizer muito com o mínimo de expressão verbal é a fórmula. O dito miniconto, se por um lado prima pela concisão vocabular, pela imagem e pela cadência (atributos do poema que é a praia do autor como se sabe), por outro, alguns textos terminam por estacionar naquela linha tênue entre o trocadilho, a blague ou o aforismo. É o preço que a fixação em formas na literatura termina pagando. Todavia percebe-se que na sucessão das páginas o autor vai aprimorando aquela técnica de ver e “fotografar” o grotesco. Aí o autor manifesta a sua profunda compaixão por aquelas vidas tão desorientadas (e que são as nossas vidas mesmo, não somente a de personagens fictícios), porque infelizmente estamos todos presos no mesmo círculo vicioso. Há na obra, outro aspecto muito bem apontado pelo escritor Tanussi Cardoso em texto de Prefácio ao livro. A hipocrisia [aquela dissimulação, falsidade; o fingir sentimentos, crenças, virtudes, que na realidade não se possui]. Afirma Tanussi a certa altura: “Aliás, talvez, esse seja o leitmotiv do livro: a hipocrisia como arma letal para a humanidade, somada à inversão dos valores morais, e à falta de comunicação e empatia.” Vale a pena transcrever os textos a seguir, nos quais, indiscutivelmente, o autor consegue uma alta concentração de significados e sugestões. Impossível não sorrir ao menos por conta de um ou outro. Mas será aquele sorriso de desespero ante o tragicômico. Após o frouxo de riso causado pela situação esdrúxula, somos tomados de uma tristeza profunda ante a constatação de que o mundo se transformou mesmo num imenso hospício a céu aberto... Criaturas deploráveis é o que vamos nos tornando. Destaque para o último. Confiram. “Suicídio anunciado” “Com filho pequeno e mulher doente, o pai de família desempregado, saiu para procurar trabalho. Dirigindo o carro, provocou uma batida. Prejuízo: despesas com lataria nova e pára-choque quebrado. Vendeu um olho para pagar a dívida. Falido, na meia-idade, passou a ver o mundo pela metade.” “Padrasto bom” “ – Vó, tem um homem morando lá em casa... - Não é o seu pai? - Outro! O pai foi embora! A velhinha fica atônita com a neta do outro lado da linha: ‘Como a minha filha é safada! Com três crianças pequenas do ex-marido’, pensou! - E... - Ele saiu do quarto da mamãe, de manhã. A avó sentiu um aperto na garganta. Que horror aquilo! - O início não foi legal, mas agora tá! Ele me dá doces, dinheiro e me leva pra passear. Me coloca no colo dele e faz até carinho em mim... nas minhas perninhas...” “Retrato do século XXI” “Jovem amante das redes sociais não estabelece mais um diálogo. Abandonou as orações subordinadas, os períodos mais longos e as intrincadas relações gramaticais. Vive de emoticons e monossílabos.” “O assassinato da solidão” “Terça-feira gorda. No centro do Rio, um homem vestido de policial, com uma cerveja na mão, olha para os lados. Uma mulher vestida de freira aparece. Está só. Perdeu-se do grupo, após brincar no Bloco das Carmelitas. Ele bebe o resto da cerveja, joga a latinha no chão, vai em direção à mulher e a encurrala. E a freira audaciosa: - Me prenda!” “Hipocondríaco” “Procurou o Lexotan, o Rivotril e o Valium. Como não achou nenhum, misturou álcool com detergente e um pouquinho de soda cáustica. Bebeu e foi descansar”. “Incompletude” “Na ausência de uma Fera, Bela casou-se com o incrível Hulk. Na ausência do amor verdadeiro, desenhou corações no caderno. Na ausência de ter com quem conversar, pegou um livro para ler. Na falta de um filho, comprou um ursinho de pelúcia. Sem celular, conversou com Deus.” EM TEMPO: O lançamento de "A vida sem disfarces" será dia 11 de junho de 2019 (próxima terça-feira), no Projeto cultural POETA SAIA DA GAVETA. Casa do Bacalhau, Rua Dias da Cruz, 426, Méier, Rio de Janeiro ; RJ, das 19 às 23 horas. Livro: “A vida sem disfarces” contos de Luiz Otávio Oliani – Editora Personal – Rio de Janeiro - RJ. 2019, 86p ISBN 978-85-63233-44-8
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