Um dos escritores mais importantes da literatura japonesa finalmente traduzido e editado em Portugal. As suas histórias, de leitura obrigatória nas escolas japonesas, influenciaram gerações de escritores, como Haruki Murakami, e inspiraram filmes de culto, a exemplo do famoso filme de Akira Kurosowa: «Rashomon — às portas do Inferno». O presente volume colige as 18 mais significativas histórias deste autor em quatro períodos da história do Japão, servindo igualmente de guia ao leitor numa viagem fascinante pela história do país e da sua cultura: do Japão medieval, habitado por xoguns, camponeses e missionários cristãos portugueses até à sociedade moderna de início do século XX, que vive as consequências da guerra contra a China e a Rússia e a pré-euforia imperialista. Ryunosuke Akutagawa foi um dos primeiros estilistas literários da literatura japonesa. A destreza com que consegue, através de pura força de estilo, trazer o mundo clássico e o fantástico da lenda medieval para a era moderna é algo de verdadeiramente arrebatador.
Rashômon e Outras Histórias (Ficção Traduzida) -
Ryunosuke Akutagawa
Uma prosa de muito talento e de forte carga psicológica
Finalizei a leitura de Rashômon e outros contos, de Ryûnosuke Akutagawa, em edição organizada e traduzida pelas professoras e pesquisadoras Madalena Hashimoto Cordaro e Junko Ota. A leitura de uma obra oriental é sempre algo de enriquecimento ímpar para mim. Ter contato com um tipo de prosa que, a meu ver, trabalha com uma estética diferenciada, com uma lógica diversa daquela em geral empregada no Ocidente, e com aspectos de valor literário também distintos daqueles geralmente caracterizados no cânone deste lado do mundo contribui para “expandir” o meu horizonte de leitura – algo muito importante para alguém que está se dedicando ao estudo do Japão. Entretando, a leitura desta obra de Akutagawa não está diretamente vinculada a nenhum compromisso de estudo, mas à curiosidade de ter acesso aos dois contos deste autor (“Rashômon” e “Dentro do bosque”) nos quais Akira Kurosawa se baseou para produzir o longa-metragem Rashômon, ao qual pretendo assistir. Queria primeiro ler o original para compreender as intervenções de Kurosawa no processo de constituição do filme. Mas a prosa de Akutagawa me fisgou de uma tal maneira, que a leitura inicial de apenas dois contos do volume se transformou na leitura do livro inteiro. A edição já começa com um ensaio formidável de autoria de Madalena Hashimoto sobre a vida e a obra do autor, com direito a comentários sobre cada um dos contos presentes no livro. As informações sobre os conflitos reais da vida de Akutagawa e do contexto histórico de sua época também são fundamentais para a compreensão de seus contos, principalmente daqueles com fortes traços autobiográficos. O texto da professora Madalena quase que esgota o que se pode ser dito sobre esses contos, além de citar outros – ausentes na obra –, mas que são relevantes para o entendimento da produção deste autor japonês. Fazem parte do livro: - Rashômon (1915); - Dentro do bosque (1922); - Memorando “Ryôsai Ogata” (1917); - Ogin (1923); - O mártir (1918); - Devoção à literatura popular (1917); - Terra morta (1918); - O baile (1912); - Passagens do caderno de notas de Yasukichi (1923); - A vida de um idiota (1927). A seleção de textos para o livro foi extremamente feliz. Abrange períodos variados da curta produção literária de Akutagawa e destaca momentos relevantes da história do Japão, como a presença do escritor francês Pierre Loti em terras japonesas (O baile); a morte do expoente da poesia haicai, Matsuo Bashô (Terra morta); os conflitos de temática cristã no país (Ogin, Memorando “Ryôsai Ogata” e O mártir); o doloroso processo de criação literária e seus efeitos de recepção perante a sociedade japonesa (Devoção à literatura popular); além da produção de teor autobiográfico (A vida de um idiota). “A vida de um idiota” é o conto que encerra o livro e traz consigo forte carga psicológica. É, na verdade, um apanhado geral dos principais acontecimentos da vida de Akutagawa e também uma antecipação de sua morte, ocorrida um mês depois de finalizado o manuscrito e exatamente da forma como é nele relatada. Ryûnosuke Akutagawa foi um dos mais brilhantes autores da literatura japonesa. Nascido no ano, no mês, no dia e na hora do Dragão (por causa disso, o “Ryû” de seu nome é a leitura japonesa de dragão), carregou consigo durante a vida toda o estigma da loucura (mal que matou sua mãe), em uma época na qual se acreditava que essa doença era hereditária, e viveu uma vida conotativamente amarrado às convenções familiares japonesas, sempre com a grande responsabilidade de cuidar de todos os parentes, e cercado por pessoas psicologicamente problemáticas. Sua produção literária mescla fortes elementos sociais do Japão não apenas de sua época, mas também faz o resgate de importantes nomes e fatos de momentos anteriores de seu país. Simultaneamente, alguns de seus escritos demonstram grande influência europeia, sem, no entanto, pôr em risco a questão de sua identidade textual, sempre muito rica nas construções psicológicas de seus personagens, além de muito bem trabalhada visualmente por meio de refinadas descrições.
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