Não à toa é possível se deparar com um ambiente um pouco mais hostil em relação aos aportes que Lacan tenta dar para a psicanálise. Seriam eles originais ou não? Qual o sentido de seu retorno? Boas perguntas, e é engraçado ver que em vários momentos quem assistia os seminários efetivamente conseguiu colocar Lacan na parede com o intuito de tentar pôr em pauta um incômodo que aparentemente rondava a sala. Se quem habitualmente ouve tem mais liberdade para falar, quem geralmente fala necessariamente acaba tendo que escutar. E Lacan escuta poucas e boas. Fica irritadiço em alguns momentos e impaciente quando contrariado. Para nós que estamos em 2021 resta sorrir com o ridículo de todas essas confusões. Felizmente o seminário está longe de ser apenas isso.
É também aqui que temos a possibilidade de encontrar uma crítica ao conceito de responsabilidade. Seria a psicanálise um dispositivo jurídico de moralização? Talvez não precise ser.
Como ser responsável se o que temos em mãos é, já em 1955, aquilo que ele resolveu chamar de "imisção de sujeitos"? Ora, estamos diante de um sujeito "policéfalo", e o debate proposto tenta dar conta da radicalidade que é trabalhar a partir desse paradigma.
Em todo caso é aqui que também encontramos um Lacan do real... Mas que real? Do corpo? Seria o fundo da garganta de Irma? Sua vagina? O que falar do "real sem mediação possível"? Estamos diante de um sonho, é verdade, mas quais as consequências e aberturas que o texto dá para aquilo que tão bem conhecemos dentro do nosso campo (real biológico)?
Por fim, se possível deem uma conferida na lição 19. Nesse dia o homem estava inspirado ao ponto de conseguir fazer-nos viajar a partir da pergunta mais absurda possível: "por que será que os planetas não falam?". Vale a pena. O que se segue é uma reflexão potente sobre a ciência e o lugar da psicanálise nesse debate. A reflexão sobre as ciências conjecturais aparece aqui como uma possibilidade de trabalho e uma orientação para o futuro.