Livro de estréia, cujos originais deram ao seu autor a classificação de finalista no concurso de contos desta editora, é constituído de contos em estilo vigoroso e linguagem correta, que prendem o leitor. Seu livro é curto, pouco mais de cem páginas, mas os contos são em geral longos, talvez se enquadrando no gênero novela, não no sentido mais comum de hoje, de trama desenrolada em capítulos pela televisão, mas naquele tradicional de narrativa entre o conto e o romance. Os contos são apenas seis, dos quais dois mais curtos. Desse modo, o autor pode estender-se, enredando as personagens, jogando com o tempo e a linguagem, de maneira quase sempre muito bem realizada. Cada leitor por certo escolherá entre os contos de Grits do Tempo o seu preferido. Um dos que despertará maior interesse será provavelmente "A casa dos gritos", de enredo absorvente e de linguagem forte, direta, realista : "...De início não entendi o que vi, as aos poucos descortinei entre aquelas carnes a pele clara de Noêmia, os cabelos esparramados pelos lençóis, parecendo molhados de tão lisos. Sobre ela contorcia-se o corpo magro do padre." Mas não são todos assim, os contos. Um exemplo de lirismo do autor: "Otávio sentiu a lágrima rolar. O ventinho que entrou bafejou deu rosto e esfriou a lágrima, a gota fria desceu pela face. O estalido do braço da vitrola indicou que o disco tinha chegado ao final. O sino da felicidade tilintara levemente." O autor não tem medo de descrever, fazendo-o com habilidade, e de usar o diálogo, sem exagero. Utiliza o narrador indiferentemente na primeira ou na terceira pessoa, sempre com a naturalidade de um autor para quem o ato de escrever não tem mistérios.
