O nascimento de uma narrativa colonial: entre descrição e apagamento
Leitura interessante (e extremamente importante) para entender como se deu o início da nossa história e as origens da nossa literatura, marcadas pela afirmação do que Alfredo Bosi (2006, p. 11) denomina como um “complexo colonial de vida e de pensamento”. As quatro estrelas se devem muito mais à importância da carta enquanto documento histórico do que à qualidade de sua escrita, embora a transcrição e a tradução do texto, nesta edição da coleção Vozes de Bolso da Literatura, sejam excelentes, feitas por uma equipe coordenada pelo filólogo Manuel Rodrigues Lapa. Alguns trechos da carta saltam aos olhos e incomodam aqueles que, como eu, a leem e a interpretam a partir de uma perspectiva anticolonialista, sobretudo passagens em que ficam claras as intenções dos navegantes portugueses que, como bem pontua o crítico literário Leandro Garcia Rodrigues (2019, p. 59), em comentário disponível na mesma edição, voltavam-se às “preocupações e alusões próprias do sistema mercantilista da época, como o episódio do índio reconhecendo os metais preciosos – ouro e prata – na indumentária de Pedro Álvares Cabral”, dentre outros episódios em que Caminha explicita o quanto, em contato com os povos nativos, os questionava “acerca de ouro, que nós desejávamos saber se na terra havia” (2019, p. 28). Não apenas isso salta aos olhos, mas também as descrições de Caminha sobre os povos nativos, que, embora sejam atravessadas por certo “encantamento" diante de seus aspectos físicos, tornam-se, em alguns momentos, perturbadoras ao tratar de seu comportamento, muitas vezes animalizando-os ao compará-los, por exemplo, a esquivos “animais monteses”, “pardais do cevadouro” e “aves ou alimárias monteses”, cuja esquiveza, para o escrivão oficial da esquadra de Cabral, decorreria do fato de serem os nativos “gente bestial, de pouco saber” (2019, p. 29-31). É justamente desse “pouco saber” que Caminha julga ser necessário “salvar esta gente”, isto é, convertê-los ao cristianismo com o intuito de inseri-los não apenas no universo da Igreja, mas também na própria sociedade, numa tentativa claramente eurocêntrica de, como destaca Rodrigues (2019, p. 62), “transformar o ‘outro’ em ‘eu’”. É dessa forma que Caminha encerra a carta ao rei D. Manuel I, a quem tão respeitosamente “beija as mãos”, afirmando que, desta terra, "o melhor fruto, que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que aí não houvesse mais que ter aqui esta pousada para esta navegação de Calicute, bastaria; quanto mais disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa santa fé”. De embrulhar o estômago, não? Vale, ainda, para quem quiser conhecer mais sobre esse período da nossa história e, especialmente, sobre a carta de Pero Vaz de Caminha, consultar os comentários deliciosamente irônicos de Alfredo Bosi em sua História concisa da literatura brasileira (2006), no primeiro capítulo do livro e, mais detidamente, nas páginas 14 e 15.


