Cangaço Overdrive

Cangaço Overdrive




Resenhas -


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Diego Araujo 06/05/2020

“Em verdade o matuto Queria ser ajudado / Mas coragem nesses dias Era raro um bocado.”
O futuro repete as questões do passado, revive as pelejas sem fim. Apenas a desigualdade progride, tira a água obtida a tanto custo, suor e sangue dos habitantes marginais. Enquanto as metrópoles evoluem cada vez mais, o sertão cearense resseca. Acoplados à esperança reservada numa fonte d’água, resistem contra a opressão, combatem e roubam o recurso já pertencido a eles desde sempre: o cangaceiro revivido para continuar a mesma história de lutas. Cangaço Overdrive é uma HQ focada no cyberpunk cearense, produzida por Zé Wellington e Walter Geovani através da editora Draco, com apoio da Secretaria Estadual da Cultura do Ceará em 2018.

“Uma ruma de polícia chegando no morro e nem pra convidar pro arrasta-pé!”

O Morro do Preá é alvo constante da força militar, sempre defendido pelo grupo de Rosa, cujos colegas guerreiros dão a vida em prol de manter as vidas da comunidade onde conquistou uma pequena reserva de água a fim de salvar pessoas marginalizadas da sede. A equipe de Rosa interceptou uma carga militar, tomou uma caixa contendo ninguém menos que Cotiara, lendário cangaceiro do século passado ressuscitado assim como seu arqui-inimigo, o coronel Avelino; ambos morreram no embate do passado, e agora no futuro eles duelarão de novo, decidirem de vez quem é o melhor.

“Oxe, quem esperou 100 anos pode esperar mais um dia.”

Recorrência é a palavra-chave desta HQ. Feitos por gente nascida no estado do Ceará e consciente da constante resistência das comunidades carentes na luta por recursos essenciais à vida. A premissa critica quanto ao futuro avançar aborda a manutenção dos mesmos problemas de desigualdade, com o agravamento em vez de uma redução, deixando o progresso agir apenas a privilegiados. Esta diferença atiça embates sanguinários onde os dois lados perdem, e ainda assim repetem o ciclo, ciclo este representado pela ressurreição dos antagonistas do passado, reprisando uma luta com recursos futuristas. Fora a tecnologia de corpos cibernéticos dos ressuscitados, ainda tem a possibilidade do mundo ver a disputa graças à internet, onde pessoas distantes podem interagir e demonstrar o nível ― negativo ― de compaixão em relação aos envolvidos.

Os quadros vêm acompanhados de narrativa em estilo cordel. De água escassa, a tecnologia de certo modo permanece acessível, os recursos obtidos ― ou tomados, como pode presumir no contexto da narrativa ― são usados nas forças e estratégias de resistência, já as casas pouco diferem das atuais, cuja modernização tem menos prioridade no Morro. A representatividade está ativa nos quadros, mostrando detalhes suficientes para o leitor reconhecer sua diversidade enquanto o enredo segue na trama principal. Essas características ecoadas em modos sutis nos quadros ilustram a ambientação da HQ e passa uma mensagem além do eterno confronto contra a opressão, pois mostra a vida compartilhada pelos personagens.

Cangaço Overdrive capricha na ambientação futurista não por enfeitá-la, e sim condizê-la na realidade possível conforme a visão dos produtores da HQ. Denuncia a repetição da história mesmo no futuro, e também valoriza a diversidade da vida defendida pelos detalhes dedicados nas ilustrações.

site: https://www.ficcoeshumanas.com.br/post/desafio-fic%C3%A7%C3%B5es-humanas-canga%C3%A7o-overdrive-de-z%C3%A9-wellington-walter-geovani-e-outros
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Davenir - Diário de Anarres 28/11/2019

Fusão muito bem feita entre cordel e cyberpunk
Cangaço Overdrive de 2018 é uma HQ nacional da Editora Draco roteirizado por Zé Wellington e uma equipe, em sua maioria cearenses, que traz uma fusão muito bacana da literatura de cordel com o cyberpunk.

A história se passa em um futuro próximo, onde o nordeste brasileiro entra em colapso ambiental sendo praticamente abandonado pela população, restando alguns focos de pobreza extrema tendo no morro do Preã, uma comunidade no Ceará que resiste apesar dos constantes ataques da polícia e das maquinações de uma corporação chefiada por uma poderosa e tradicional família. Até que uma caixa misteriosa é interceptada pelo grupo de Rosa, líder da resistência armada do morro. O conteúdo da caixa é nada menos que o lendário cangaceiro Cotiara. Sua chegada vai desencadear uma escalada de morte e violência e uma pendência que dura mais de um século.

A história consegue fundir os mundos de forma muito agradável. É uma história sobre o cangaço, mas levada ao futuro pela tecnologia. O narrador canta como num cordel com a mesma fluidez que fala de tecnologia. Tudo com bastante concisão, sem quadros desperdiçados fora da trama principal. Uma perseguição a um grupo de cangaceiros tornada numa batalha de ciborgues. As redes sociais aparecem de forma sutil mas tão fluída que quase não se percebe. O elemento de resistência do povo sofrido contra os interesses do capitalismo selvagem trouxe uma agradável lembrança ao filme Bacurau (lançado depois) e que dá força ao quadrinho pois aliou o regional ao universal, das lendas a nossa dura realidade. Apesar de não ser especialista, as artes agradam bastante, sendo a que menos me agradou foi justamente a capa. Leitura altamente recomendada!

site: http://wilburdcontos.blogspot.com/2019/11/resenha-112-cangaco-overdrive-ze.html
Kelli ( kell_msa) 28/11/2019minha estante
Já quero ler. A historia parece incrivel.




Gisele @li_trelando 20/10/2019

Brasil mostrando seu potencial
Um trabalho primoroso que se utiliza do potencial das histórias do Brasil. Achei um pouco corrido, mas entendo que existem limitações pra desenvolver bem uma história quando os meios são escassos. Ainda assim, uma bela obra de arte.
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Ricardo Santos 22/12/2018

Sertão hi-tech
Triunfo dos quadrinhos nacionais por sua proposta em aliar o regional com o universal. Temos aqui uma história do cangaço contada por uma ótica de ficção científica. Passado e futuro se misturam, numa trama ágil e relevante. O roteirista Zé Wellington mostra que pouca coisa mudou na luta entre poderosos e oprimidos. Antes os coronéis judiavam do povo. Agora são as grandes corporações. Mesmo que a estética cyberpunk dos anos 80 já esteja batida, o mérito de Cangaço Overdrive é trazer o avanço tecnológico possível para a realidade brasileira, nordestina. O "futuro do atraso"pode ser datado, porém é algo mais de acordo com nosso país. O bacana do roteiro é a atmosfera de sertão hi-tech, principalmente, nos diálogos. A arte, requadros e cores cumprem bem a função de tornar esse universo interessante. Cangaço Overdrive é uma prova de que precisamos contar nossas histórias de uma maneira diferente.
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Dhiego Morais 10/07/2018

HQ nacional de qualidade
2018 está sendo um grande ano para o universo dos quadrinhos aqui nas terras tupiniquins. Com lançamentos europeus, consagrados internacionalmente, pela editora Mythos nos selos Gold e Prime Edition, além, dos selos especializados das editoras DarkSide, Geektopia, Mino, Nemo, Avec, Pipoca & Nanquim, Panini e tantas outras, que se arriscam e enxertam no mercado uma gama diversificada de obras e autores muito interessantes. É aproveitando essa maré que a editora Draco trilha um caminho ousado, mas não menos necessário e gratificante, dando a oportunidade a grandes quadrinistas nacionais de apresentarem o seu trabalho diferenciado, com belos quadrinhos que dão mais cor e vivacidade a um catálogo nacional e extremamente plural ? para não citar também os romances de literatura fantástica.

Sendo assim, a editora Draco lançou um quadrinho que consegue unir de maneira surpreendente tecnologia com elementos puramente regionalistas, puramente brasileiros, construindo talvez, um dos primeiros cyberpunks nordestinos do universo das HQs. A fusão inesperada entre cangaço e tecnologia futurista, a princípio estranha aos ouvidos, é realizada de maneira tão exemplar que fica difícil entender como essa mistura nunca chegou a nossa estante antes.

?Mesmo a gente, que vive de matar os outros, precisa de alguém que viva por nós.?

Cangaço Overdrive é uma história em quadrinhos que conta com o roteiro de Zé Wellington ? autor de outras HQs também pela editora Draco, tais como Quem matou João Ninguém (2014) e Steampunk Ladies: Vingança a Vapor (2015) ?, vencedor de um troféu HQMIX em 2015, e com layouts de Walter Geovani ? conhecido por alguns de seus trabalhos pela Dynamite, como Red Sonja, além de outras contribuições pelas renomadas Vertigo e Titan Comics. O quadrinho ainda conta com: desenhos de Luiz Carlos B. Freitas e Rob Lean; colorização de Dika Araújo (Quimera), Mariane Gusmão e Tiago Barsa (The few and the cursed); e apoio da Secretaria Estadual da Cultura do Governo do Ceará.

Em Cangaço Overdrive, o leitor é convidado a conhecer um Ceará futurista: aqui a realidade é completamente diferente, extremamente tecnológica, mas não impossível. Elementos já conhecidos da população brasileira, tais como a seca, a forma de se expressar verbalmente e até mesmo a violência dos morros se mesclam ao novo ambiente, induzindo a um ar de similaridade que amplia a sensação benéfica de receptividade à obra. Apesar de seu roteiro não muito longo, o avançar das páginas promove um estreitamento do público leitor com o quadrinho.

Logo nas páginas iniciais presencia-se a tentativa de invasão, pela polícia, ao Morro do Preá, com o objetivo de apreender e recuperar certa carga misteriosa. É bastante interessante notar a relação entre a comunidade, que atravessa uma seca que já dura anos, esquecida pelo governo de um país que se divide entre um norte árido e abandonado e um sul tecnológico e rico.

As personagens criadas por Zé Wellington são um show à parte. Aproveitando-se da miscigenação e da pluralidade cultural brasileira, o autor insere em Cangaço Overdrive um elenco coeso e agradável, com mulheres muito expressivas, que não ficam marginalizadas, mas que desempenham uma série de transformações na história do Morro do Preá e do Cangaceiro Cotiara.

Talvez o leitor iniciante tropece nos início da aventura devido ao regionalismo empregado, que se vale de expressões da linguagem popular nordestina constantemente. Entretanto, a familiarização logo surge e a leitura prossegue com mais fluidez. É válido citar ainda que essa valorização cultural, embora não seja tão frequente na literatura nacional, que muitas vezes fica refém do eixo SP-RJ, é estritamente necessária para não apenas polarizar, estimular novas produções como essa, mas também de modo a inserir no mercado uma variedade, uma nova visão de um Brasil rico culturalmente, com uma série de regionalismos próprios e que merecem o seu espaço no universo dos quadrinhos e, em adição, dos romances.

Cangaço Overdrive se aproveita, com bastante ousadia, do cordel para narrar a sua história. Dessa maneira, a história da peleja do icônico cangaceiro Cotiara e do indesejável coronel Avelino alcança um nível de criação quadrinista ímpar. Ao unir aspectos futurísticos a elementos nacionais nordestinos, inovando a forma de contação de histórias e ainda se mantendo contemporâneo, valendo-se de críticas sociais, sem censura, e promovendo o protagonismo às camadas esquecidas da sociedade, o quadrinho entrega em síntese, um trabalho que impressiona até o leitor mais experiente.

?Pois dizia Patativa

num cordel deveras lindo

?A covardia é muito grande

mas ninguém tá desistindo

Morre cem de quando em quando

Mil vai substituindo?

O roteiro não se priva da violência verbal e física, quando ela é necessária à história, enquadrada por uma série de ilustrações que valorizam as personagens. Em alguns momentos me recordaram o estilo do traço de quadrinhos como The Wicked + The Divine, que não chegam a ser complexos demais, mas que agradam a maioria dos leitores.

Cangaço Overdrive é a prova de que um quadrinho nacional pode e consegue mesclar de maneira extremamente satisfatória elementos regionalistas, à tecnologia, produzindo um subgênero de cyberpunk puramente brasileiro. Aqui, características futuristas, a seca selvagem, uma comunidade unida e marginalizada, a violência contra a população e o descaso governamental se misturam para recriar e reanimar os protagonistas de um duelo que nunca teve fim de adequado. Dois inimigos de um século passado retornam a um Ceará transformado pela ciência, para finalmente se vingarem em um final digno de cena de faroeste. De sua janela fique atento e observe o sertão dar lugar a uma arena sangrenta.
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