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Trans Age de Carvalho


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ROGÉRIO EDUARDO ALVES
ESPECIAL PARA A FOLHA

Grande parte da poesia de hoje está marcada por uma dicotomia.
De um lado, aqueles autores que procuram apenas expressar sentimentos. De outro, os decididos a fazer da forma do texto seu conteúdo.
Não é uma divisão nova.
Pelo menos desde a década de 1950, com a poesia concreta, as trincheiras ficaram definidas.
Hoje chama a atenção que a combinação dos dois campos tenha se tornado o programa literário de alguns jovens poetas.
Sem manifestos, Age de Carvalho transi ta de um lado ao outro fazendo uso do que ambos possuem de melhor.
Basta abrir "Trans", seu novo livro, para encontrar palavras que ladrilham o caminho para uma bela força lírica por suas características de som e sentido. A começar pelo título.
Em versos precisos, as imagens do poeta abraçam o invisível, dando à palavra a força de capturar o sagrado.
São as "palavras-mortalhas" que envolvem um "Ser" que carrega em si o maiúsculo de um Cristo e do poeta. "Tua verdade, tua dúvida / (...)/ é tudo que trazes contigo agora / sob essa palavra-destino / embrulhada em túnica."
O sagrado, não necessariamente religioso, é encontrado no cotidiano. Nas pessoas que deixaram sua ausência, na vida registrada em pequenos gestos.
Numa série de emaranhados, a profundidade do inaudito mistura-se com o comum numa explosão lírica construída pelas palavras medidas. Age de Carvalho faz da série de poemas uma espécie de álbum de retratos muito pessoal.
As sólidas imagens mui tas vezes esculpidas como enigmas esfarelam-se como os acontecimentos biográficos.

ESTRUTURA
Como cada poema, o livro tem uma estrutura precisa.
Começa com uma forte carga do sagrado que se esgarça pelos temas cotidianos, mergulha com a mesma intensidade pela biografia do autor até entregar-se definitivamente ao enigma, representado por Max Martins, poeta-mestre de Age de Carvalho, que, por sua vez, leva ao início da obra.
É verdade que nem sempre é interessante considerar a biografia de um poeta para a leitura de seu livro.
Mas a história desse autor de Belém do Pará, editor de poesia, que trocou sua terra natal pela Áustria, onde trabalha como artista gráfico, parece estar retratada nesse dinamismo de "Trans".

Embora mais acessível que seu livro anterior, "Caveira 41", de 2003, a poesia de Age de Carvalho continua de safiando. Nada é linear.
O poeta deixa suas marcas aparentemente sólidas para quem quiser entregar-se à busca do caminho incerto para o Ser, "manga brilhante se ofertando / entre ramas de ouro".
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ROGÉRIO EDUARDO ALVES é coordenador editorial da Fundação Padre Anchieta e doutor em teoria literária e literatura comparada pela USP

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