Escrito pela jornalista e escritora americana, Martha Gellhorn, o livro A Face da Guerra (Editora Objetiva) foi originalmente publicado em 1959 com relatos de guerras como a da Espanha, Finlândia, China e Segunda Guerra Mundial. Desde então, sofreu diversas modificações recebendo matérias extras por motivos óbvios - mais guerras aconteceram.
Aclamado pelo jornal britânico New Statesman como “o melhor relato já escrito por qualquer pessoa sobre a guerra”, a coletânea de reportagens pode deixar a desejar quando se trata de jornalismo. As primeiras páginas do livro evidenciam a inexperiência da repórter. Faltam dados concretos, a apuração é praticamente inexistente e a linguagem nem de longe parece com a de um jornal. Contudo, a escrita ainda é boa e com um vocabulário acessível Martha consegue manter ativo o interesse do leitor. Suas deficiências foram supridas com pautas fora do comum e uma visão diferente dos acontecimentos. A autora expõe o peso da guerra não só para quem a faz, mas para quem a sofre: a população civil.
Talvez o maior fator para o sucesso do livro, a parcialidade foi uma característica marcante. Está presente em todo o texto, em expressões na primeira pessoa do plural, como nossos exércitos ou nossa artilharia. Como judia americana, expressa em seu livro o ódio contra os alemães em diversas passagens, das quais se destaca: “Na Alemanha, quando você vê a devastação absoluta, você não chora”.
Como autora, ela não esconde o seu lado humano, nem seu horror aos conflitos. Questiona, sem entender, como pessoas podem matar-se umas às outras e fica horrorizada com a guerra moderna, onde os civis correm tanto risco quanto qualquer soldado.
À medida que as páginas avançam, a evolução no trabalho jornalístico é notável – estimativas de mortos, números de soldados e contatos importantes começam a aparecer. A credibilidade de Martha ganha peso. Ela entra em aviões de caça, janta com os soldados nas trincheiras e em meio a cada apuração indigna-se por perceber que os defensores da pátria são apenas garotos. São repetidas passagens em que a autora descreve a paisagem e a destruição causada pelas bombas, por obuses, pelos tiroteios. Descreve a população desesperada, sem esperanças, passando fome e sede.
Martha Gellhorn via nas reportagens que escrevia uma maneira de denunciar a violência, o terrorismo e o absurdo da guerra. Mas estas não eram as únicas coisas que a revoltavam. Sob o título Eles falaram de paz Martha discorre sobre a Conferência de Paz de Paris. Uma reunião em que, segundo ela, os políticos dos países mais desenvolvidos discutiam, sem concordar em nada, o rumo do mundo. Políticos estes que, segundo a autora, esqueciam do que eram feitos e da maneira como viviam cada país que tentavam “ajudar”.
A escritora estava, acima de tudo, indignada. A transmição deste sentimento para seu texto, transforma-o em um canal de comunicação com o leitor, e o que se lê lembra diálogos. É assim que a autora consegue manter-se atual, ainda que descrevesse apenas guerras e conflitos armados do século passado. Suas dúvidas e revoltas são as mesmas de qualquer pessoa. Além disso, tem plena consciência da importância de seu papel como jornalista. Por diversas vezes condena abertamente a propaganda de guerra, a cobertura de conflitos reduzidos a contagem de corpos e taxa de mortes, o que talvez explique suas pautas diferenciadas.
Ao viver a tensão da guerra, passar a necessidade da população, comer as mesmas rações que os soldados, enfrentar as mesmas noites em claro, as mesmas preocupações de todos que sofrem com os conflitos, Martha dá uma aula de jornalismo internacional e de cobertura de guerra.
Percebe - e tenta abrir os olhos de seus leitores para o fato de - que quando a guerra acaba, a situação não se reduz a um simples ponto final. Em seu livro, ao selecionar as reportagens, Martha fez questão de incluir pequenos conflitos em países pequenos ou afastados. Quase todos, segundo ela, foram consequências de guerras maiores.
O jornal New Statesman não foi o único a elogiar o livro. Na lista dos que fizeram boas críticas se encontram grandes nomes como New York Times e The Guardian. E eu, particularmente, concordo com eles. Apesar das falhas jornalísticas, da falta de dados, e até, em seus primeiros trabalhos, de entrevistas, Martha Gellhorn fez o seu trabalho com excelência. Ela conseguiu mostrar que os campos de batalha eram apenas uma parte da guerra e que a realidade merecia uma maior abordagem.