A Peste das Batatas -

    Paulo Sousa

    Pomelo Editora
    2019
    192 páginas
    6h 24m
    ISBN-13: 9786590158406
    Português Brasileiro

    Era mais um dia de lida do agricultor omar. Cansado e cheio de dívidas, acordou cedo para a colheita e logo reparou em um estranho sal na casca de suas batatas. Desconfiado, pensou que se tratava de um fungo comum, mas não poderia estar mais errado. Em poucos dias, as batatas do brasil começaram a se transformar em sal, fenômeno que ganhou a alcunha de peste. Omar decidiu recorrer a doutor jameson, seu amigo e conceituado botânico. O maior especialista em batatas do brasil, quiçá do mundo, enxergou na indecifrável peste a oportunidade ideal para se consagrar como o maior cientista da história tupiniquim. às vésperas da eleição presidencial, o caos tomou conta das cidades, dos campos e do vale das batatas, ponto de partida de uma missão nunca antes conquistada na história deste país. Uma jornada pelas entranhas da política, num cenário de burocracia e corrupção. Conseguirão eles erradicar a pior peste já enfrentada pelos brasileiros.

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    Andréa Bistafa Alves28/06/2020Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    “Assim como no Brasil, Omar virou bruscamente à direita, (...)”

    A PESTE DAS BATATAS nos traz uma sátira político-social no nosso Brasil contemporâneo. Nessa obra revivemos o período pré-eleitoral de 2018, que na verdade é apenas um plano de fundo para uma peste que assola as plantações de batata e consequentemente, a economia. No Vale da Batata, Omar Salgado leva sua vida simples, legado de seu pai, plantando batatas e vivendo o aperto financeiro entre uma safra e outra. Omar espera por um empréstimo do banco direcionado para pequenos agricultores, um empréstimo burocrático que custa vir. Como a vida do trabalhador simples sempre pode piorar, uma peste quase sobrenatural invade sua plantação, e Omar começa a notar diferença no peso das sacas, até que essa se torne gritante e em meio aos colegas de plantio, percebam que as batatas simplesmente somem, deixando em seu lugar sal puro. O Vale entra em desespero, já que a maior fonte de renda está literalmente esfarelando, e logo o impacto causado na produção torna-se interesse público e político. Então é aqui que entra Jameson, um prestigiado pesquisador, especialista em tubérculos “(...)rumo a Brasília, neste país lugar melhor não há”. Aqui nós temos uma mudança de narrativa, parece estranha até você notar que é totalmente proposital por parte do autor. Mesclando o formal e a oralidade, que torna agradável a leitura, nos capítulos de Omar as palavras escolhidas são coloquiais, carregadas de gírias, enquanto nas escolhidas para Jameson são em grande parte cultas, carregadas de termos científicos; sem esquecer do machismo e do racismo que emprega ora aqui, ora ali. Jameson traz a primeira pessoa na narrativa que anteriormente pertencia a terceira, deixando Omar numa posição “inferior”, logo que sua vida é narrada por alguém que diferente de Jameson, narra suas próprias peripécias, tentando apresentar-se a nós como o culto herói educado, aliado à ciência, que salvará com certeza a nação da extinção das batatas. Porém, ao longo da trama, entre ambição, meritocracia e desonestidade (muito presentes no cotidiano da maioria dos brasileiros), Jameson figura mais como anti-herói ou aproveitador do que salvador da pátria. Todos os personagens possuem seus delitos, pequenos ou grandes, assim como atitudes politicamente incorretas. Ninguém está a salvo, claro que há diferença entre o quanto cada uma delas afeta ao próximo e a sociedade em si. O autor capricha nas informações técnicas, na descrição dos ambientes e nos fatos históricos, puxando o leitor para paralelos e reflexões durante toda a leitura. Não posso falar dessa obra sem citar as referências que o autor buscou para seus personagens, em tons críticos e humor ácido. Algumas referências são indissociáveis como o famoso "sê-lo-ia" do presidente José Vlad da Silva e sua preocupação com a opinião pública. “‘Quase um vampiro’, brincou Mara, e o presidente sorriu moderadamente.” O final chuta o pau da barraca - ou da batata - com um presidente mostrando suas “presas” autoritárias e o impulso do trabalhador - que fora prejudicado do início ao fim - de cortar o mal pela raiz. Estaria Paulo Sousa prevendo nosso atual cenário?

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