Aquela Moça -

    Francine S. C. Camargo

    Penalux
    2018
    124 páginas
    4h 8m
    ISBN-13: 9788558333047
    Português Brasileiro

    Os contos de Francine têm sabor de infância. Nas memórias da escritora, as tardes longínquas de um tempo que continha a inocência das primeiras impressões, a efervescência da novidade e a capacidade que os “pequeninos” possuem de sentirem intensamente as primeiras emoções. Em “Rela e Requenguega” a autora mostra uma criança experimentando a fraternidade universal com os animais, exaltando o surgimento natural da compaixão nesta tenra idade. Outros contos, como “Blem Blem Bleam” mostram o relacionamento de crianças umas com as outras, desenvolvidos com acanhamento e timidez no cerne dos primeiros passos para o convívio social. Temas mais maduros, no entanto, são desenvolvidos com uma lírica sutil, dilemas adultos de tentar segurar, manipular, o tempo-espaço, quando na verdade é óbvio é também frustrante reconhecer que o homem é moldado e construído pelo passado, presente e futuro. Os contos estão lá, escritor no papel, as memórias, as utopias, os dilemas e reflexões são produzidos com a habilidade mestra de saber a dose certo de lirismo. “Aquela Moça” deixa um gosto tênue de esperança, pois além de dissertar sobre as várias batalhas humanas, a perda da infância, que traz novos dilemas, ao final de tudo, diz que o homem é um eterno desabrochar. Deixar as certezas no passado, e renascer para o novo requer tremenda garra, pois “Desabrochar era muito exaustivo”.

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    Maria José Leite - Blog Pétalas de Liberdade20/12/2018Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Resenha para o blog Pétalas de Liberdade

    A obra é composta por trinta e seis contos mais a apresentação. Os contos são bem curtinhos, com menos de cinco páginas, e alguns tem até uma carinha de crônica. Comentarei sobre alguns dos que mais gostei. "A primeira" traz uma garota que fica menstruada pela primeira vez, num dia de sábado, onde só queria brincar e não ter que pensar sobre o que aquela mudança significaria. Encontrei poucas vezes nas minhas leituras uma história que abordasse a temática da menstruação. "Como se conta algo assim? É que estava confusa e queria discorrer sobre a fugacidade da infância? É que a vida passava apressada e ela não queria se ocupar de crescer? É que as bonecas eram seu delírio de menina e não estava vestida para sair do faz-de-conta? (página 34) "Depressão, terapia e alguns lenços" retrata muito bem o que sente um depressivo e o longo caminho até aceitar/acertar o tratamento. "Tristeza assim, meio sem causa, sem meio, sem fim. Ausência de aspirações. Satisfação zero. Sono, sono, sono ou um querer ficar ali deitada, sem uso. Um não querer ir. Sair de casa? O mínimo necessário para as notas não despencarem. Apetite? Não. Estudo? Várias tentativas, mas a cabeça vai para além e não volta mais." (página 39) "Quem fecha os olhos, consegue acobertar incêndios por algum tempo. Mas alguns lenços jamais enxugarão grandes inundações." (página 42) "Eu em mim" é sobre um momento de reflexão em frente ao espelho, onde perguntas desvendam qual o rumo e a motivação do personagem para a vida. "- Minhas mãos estão estendidas para ajudar alguém. Não sei se a mim mesma ou ao peregrino que julgue indispensável passar por mim. E assim planejo colher sorrisos, meus e de quem quiser ser amparado; a intenção é conhecer quem eu já conhecia e quem jamais pude interpretar, transformar a mim e a esse, por meio das canções... dos livros... das minhas mãos." (página 66) "Crônica para um certo Hamlet" mostra uma paixão adolescente, aquela fascinação por outra pessoa, a citação abaixo explica melhor: "E essa é só mais uma história de menina que se apaixona pelo professor ou amor platônico da juventude, ou tão somente um desses sentimentos necessários de via única, que gotejam em corações despreparados, nutrem e dilaceram na mesma medida, mas que não têm final feliz, nem infeliz, porque simplesmente não começam. Desses sentimentos que colorem, apesar do drama, e tornam a idade dos 15 anos uma fase catastrófica, visto existirem tantas tonalidades querendo aflorar, sem conseguirem." (página 68) "Ele e ela" é a realidade da rotina de alguns casamentos, com cada um ocupado com as suas próprias coisas; nem sempre se consegue a atenção do parceiro, mas volta e meia o companheirismo na relação aparece. "Assim avançava o diálogo das duas almas diariamente. Ele à esquerda, ela à direita. Ele, ao banho, ela com a pasta de dente. À mesa, ela café, ele leite. No carro, ele notícia, ela música. Ele dia, ela noite." (página 86) "Cobertoooooor" é protagonizado por duas amigas que estão no segundo ano da faculdade de medicina. Cansadas de teoria, resolvem ir para a prática e passam a fazer estágio num pronto-socorro, cheias de vontade de ajudar. E aprenderão que muitas vezes o trabalho não está ligado a cortar e costurar alguém, mas a providenciar coisas simples que os pacientes necessitam. "Uma amiga quase médica" continua nessa área que a Francine conhece bem (a autora é pediatra). A narradora vai à casa da amiga que está cursando medicina e fica curiosa para ver o que ela anda aprendendo. O trabalho da amiga, fotos de pedaços do corpo, não causa grande impressão num primeiro momento, mas na volta para casa é que essa impressão vem, e forte! Em "Pesadelo", o personagem tem sonhos onde é perseguido por uma figura horrenda. A tensão é presente nesses dois contos, especialmente "Pesadelo" até me lembrou da escrita do Edgar Allan Poe em alguns contos dele que li, e eu confesso que adoraria ler mais histórias sombrias da Francine, acho que ela leva jeito para isso. "Claro que é um sonho. Se não fosse, escutaria o telefone tocar, pois os amigos mais próximos com certeza me procurariam para saber a quantas anda minha consciência da realidade, talvez com alguma indicação de psiquiatra para seguir ou sugestão de final de semana em spa para espairecer (e depois, quem sabe, repensar os livros que ando lendo)." (página 70) E temos contos sobre animais. "Quem dera ser um peixe" retrata as espécies que convivem em um aquário, com suas vidas breves. Em "Velha Amiga", o narrador volta para casa e sente falta se sua companheira estimada, uma cachorra. "Aquela moça" foi o segundo livro que li da autora, o primeiro foi "Mãos Livres", também de contos (e que continua sendo o meu favorito da Francine). E assim como no outro livro, "Aquela moça" me encantou com o potencial que a Francine tem de escrever histórias curtas, mas com as quais o leitor se identifica muito. É incrível ler cada texto e se ver ali, naquelas palavras. Outros contos têm o poder de nos transportar, seja para dentro de um aquário, seja para um hospital com jovens estudantes cheios de vontade de ajudar. Achei muito bacana isso de a Francine escrever algumas histórias sobre a área médica, mas também temos contos sobre conviver com crianças e as pérolas que elas dizem e contos sobre os sentimentos, sobre se encontrar no mundo, sobre a vida. Acho que esse foi o primeiro livro da Penalux que tive em mãos e achei a capa bem bonita, não encontrei erros de revisão, as páginas são amareladas, a diagramação traz letras, margens e espaçamento de bom tamanho. Fica a recomendação para quem procura um livro de contos curtos e rápidos de se ler, mas que, com certeza, trará ao leitor aquela sensação de se ver naquelas palavras.

    1 curtida

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