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ARA Ana Luísa Amaral


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Romance aqui (na escrita de Ana Luísa Amaral) é o empenho em vasculhar um gênero ficcional (seus tempos, suas personagens, seus lugares) que se ponha a expressar (com a propriedade que lhe couber nessa arriscada louça) a evidência de um mundo inominado e exíguo, fascinante: o da mulher – essa eterna questão de gênero. O que alarga o exercício de tal novelística para outros modos literários, conflitantes e afins: o verso, o teatro – o cinema de palavras?
De maneira que todos os componentes dessa “ficção” se encontram (então) em estado de periclitância notável, visto que trabalham (amorosamente) em romance, no trânsito entre si e o alheio, para facultarem um idioma (um romanço?!) jamais praticado porque interdito, e outro – porque mudo. Cadê a matéria verbal para dar conta de nós, as mulheres? E, no entanto, dispomos apenas do mesmo e velho repertório de conjugações e pronomes simples (gramática, sintaxe, semântica, efeitos verbais, adjetivos, substantivos, interjectivos), do kit de uma tradição canonizada e estranha, para esculpir e rasgar, para parir a carne da nossa vida, a nossa letra própria. Para criar, na língua que usamos, um sentimento infalável.
Sulcar essa matéria tão pisada, ará-la, lavrá-la, preparar-lhe outra cultura não é apenas um conforto explicativo ou uma lide botânica em que florescem camélias nos túneis das lembranças. O tempo corre, a escrita urge e faz-se um esforço maratonista para fabricá-la: alcançá-la antes que se esboroe. A língua de Ana Luísa é uma ocarina breve, um lume, uma pira acessa que aponta para o terceiro país (aquele onde nascem as japoneiras), o continente obscuro (dixit o dr. Freud) a minuciar. E daí que (sempre em grandes tornados) interrogue: afinal, o narrar tem dono?! Nela, tudo está em vez de, difusamente no avesso e em reverso, em hiato ambivalente, em entrelugar, em des-hibernação, em capicuas, em anagramas, em palíndromes.
E isso é Ara: assentamento da antiga pedra do lar para uma nova casa comum e branda. Dela, se pode ver o mar travado, se podem ruir os longos penedos que oprimem, se podem ouvir os pios coloridos dos pássaros.
Mas nada disso é arrimo. O esquema é inenarrável. Não há bolsas nem saltos (elegantes) de sentido. Nenhum recato entre folhas, caneta, caderno, mão, borracha, lápis, risco ou emendas em cima dessa mesa. Só o espanto produz a coisa de rasgar, o resto, a liga que lhes destrói a simetria.
A jusante, a montante, num eclipse de lua, contra a fluência das águas (e sôbolos rios que vão), a língua de Ana Luísa Amaral falha contra o vento. Mas, ara! É só assim que se escreve! (Maria Lúcia Dal Farra)

Primeiro: a prosternação diante do altar. A hesitação diante da proliferação dos ritos: sacrifício, louvor, cântico, narrativa. Figuras e vozes, acólitos. Insurgências. Japoneiras e túneis do sentido. Discrepância a todas as vozes acumulando num sentido. Não único, mas unívoco. Desde a infância.
Segundo: (como se diz de um andamento ou de um painel): o tríptico dentro do tríptico das DUAS IRMÃS: a narrativa oblatória e clara da paixão sáfica. Ardente e casta. Sem falso pudor. Vergonha é não te amar. A oferenda lírica.
Terceiro: não é coisa de rasgar como romance este romance. Assente na pedra do lar um prisma multifacetado e translúcido: o amor único, a palavra. A brisa do arado sobre a ara. (Maria Velho da Costa)

LGBT / GLS / Literatura Estrangeira / Romance

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06/06/2016 18:32:01