Das poucas coisas que li e gostei de César Aira, um escritor prolífico (tem mais de cem títulos publicados) foi mesmo um conto que tempos atrás especialistas em literatura de seu país, numa votação, escolheram como décimo lugar entre os cem melhores argentinos do século XX. Trata-se de Muchacha Punk (Garota Punk), que faz parte de Vinte Ficções Breves (Edições Unesco Brasil, 2002), uma antologia de histórias curtas de autores argentinos e brasileiros contemporâneos. É um conto sensacional, em que um Aira mais comportado (ou focado, digamos assim) nos leva a uma Londres que existiu nos anos 1970. Ou na cabeça dele, por apenas uma noite de um remoto dezembro.
Depois apreciei Continuação de Ideias Diversas (editora Papéis Selvagens, 2017), um pequeno livro (92 páginas) em que inúmeros textos curtos, ocupando menos de meia página em média, que quase sempre eram divagações e digressões envolvendo literatura, embora alguns escritos também trouxessem ideias ou questões ligadas às artes em geral, especialmente cinema, pintura e escultura. Não apreciei tanto assim a terceira leitura ou meu segundo livro dele, Como me Tornei Freira seguido de A costureira e o vento (Rocco, 2013), que resumi afirmando ser a primeira uma história boa para vomitar e a segunda para alucinar.
Se a Argentina tem ótimos escritores, e Aira é considerado um deles, também um bom futebol, por outro lado tem péssimos governantes, especialmente os de esquerda, que nos últimos anos passaram mais tempo no poder: são demagogos, populistas e por vezes flertam com ditaduras, no que os hermanos se parecem um tanto com nosso país. Quer dizer, a Argentina parece estar permanentemente em crise; a crise econômica é o pano de fundo de As Noites de Flores, publicado por lá em 2004 (e aqui em 2006 pela Nova Fronteira). Flores é um movimentado bairro residencial e comercial de Buenos Aires onde os personagens centrais do livro, o casal de idosos aposentados Aldo e Rosita Peyró, trabalha no período noturno para reforçar o orçamento doméstico fazendo entregas de pizza a pé, enquanto a maioria dessas entregas é feita por entregadores motorizados.
Assim, os dois têm oportunidade de observar com os próprios olhos as consequências diretas da crise: crimes, famílias dormindo nas ruas, gangues de jovens praticando vandalismo, idosos e crianças abandonados, bêbados... Junte-se a isso uma situação extrema, a do sequestro e posterior assassinato de Jonathan, um jovem motoqueiro que trabalhava fazendo entregas com sua moto. Isso desencadeia uma série de reações entre os demais entregadores, os habitantes e comerciantes do bairro de Flores, da sociedade argentina.
Até aí tudo bem, parece que estamos a ler uma história tradicional com início, meio e fim, e até nos esquecemos um pouco para quem já leu o escritor argentino antes que isso não é lá muito coisa da escrita de Aira, perguntar, por exemplo, quem sequestrou e matou Jonathan. Claro que não, porque de repente surgem na história um convento de freiras viciadas em pizza, subterrâneos góticos, travestimentos, uma discussão sobre a arte como fraude, anarquia sexual em tom de fábula, como destaca a editora brasileira da obra. Quer dizer, tudo muda de figura substancialmente: e esse é de volta o singular Aira que conhecíamos de outros carnavais. Esses capítulos finais, rocambolescos, me fizeram apreciar menos As Noites de Flores.
Lido entre 20 e 28 de outubro de 2023.