ATUALIZAÇÃO: acabei de ver que a Companhia das Letras está lançando uma edição massa deste livro! :)
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"Balada de amor ao vento" (1990), romance de estreia da moçambicana Paulina Chiziane, anuncia com clareza a tríade que viria a marcar grande parte de sua obra: o ser mulher/ as relações de gênero, a poligamia e o colonialismo num Moçambique culturalmente diverso.
Sarnau conhece Mwando ainda jovem. A partir de então eles viverão um romance de encontros e desencontros não só amorosos, mas culturais e religiosos. Sarnau, de início, vai nos mostrar como é ser a primeira esposa num regime poligâmico que segue os preceitos locais. Já Mwando, ao se casar com uma mulher que não corresponde ao comportamento feminino esperado e imposto socialmente, nos apresenta os questionamentos identitários de um homem que tenta se situar num casamento fundado no patriarcalismo cristão. O que vem depois disso é spoiler, mas adianto que, num caso ou noutro, a narradora adverte: "com a poligamia, com a monogamia ou mesmo solitária, a vida da mulher é sempre dura".
No meio dessa sofrência, temos a escrita lírica de Chiziane, que neste livro, ainda mais do que em outros, retira das paisagens naturais de Moçambique inúmeras metáforas para falar da dor e da delícia de viver uma paixão intensa. Sabe aquela escrita amorosa composta por suspiros profundos na presença e por lamentações incessantes na ausência do ser amado? Então... Eu sei que há quem goste e há quem não goste desse estilo de escrita, mas o ponto é que já neste romance percebe-se a facilidade com que a autora desenha o interior dos personagens. Com Paulina, vemos, sentimos, cheiramos e tocamos os desejos e as angústias de suas protagonistas. Há quem se canse das lamúrias femininas que caracteriza sua obra, mas eu continuo a considerá-las, num todo, uma escolha acertada para revelar às leitoras a complexidade de mulheres que sofrem, sofrem, se submetem, se levantam, transgridem, sofrem de novo, se levantam de novo... Fragilidade e força caminhando lado a lado, de modo sutil.
Minha crítica negativa, que me levou a descontar uma estrela da nota final, fica por conta dos saltos narrativos do romance. Quase no meio da leitura, eu cheguei a pensar que daria 3.5 de nota, entretanto, mais uma vez, Paulina me presenteou com um desfecho mais do que satisfatório.
Eu continuo a recomendar o romance "Niketche" (2001) como porta de entrada para a obra da Paulina, mas vale a pena, depois disso, voltar no tempo e descobrir o caminho percorrido pela autora para chegar a seu romance mais aclamado.