É inegável que o Umberto Eco foi um dos autores mais geniais da nossa época, e os dois romances que eu li (Número zero e O nome da rosa) foram suficientes para me tornar um grande admirador do seu trabalho.
Eu já conhecia o seu trabalho antes mesmo de ler os livros porque na minha adolescência o filme O Nome da Rosa estava com um grande hype e era usado como material didático no ensino fundamental, e lembro perfeitamente que achei incrível aquela história de monges sendo envenenados — eu não vou dizer como tudo acontece, mas se você ainda não leu O nome da rosa... LEIA! —. Tive que relê-lo alguns anos depois com um pouco mais de bagagem intelectual para entender a trama e os seus muitos detalhes históricos, porque na primeira leitura eu achei o enredo parecido com o estilo do Dan Brown e esse pensamento me acompanhou durante todo o tempo, uma referência da minha cabeça jovem daquela época e como percebi mais tarde, absurda.
Mais do que uma simples biografia, Confissões de um jovem romancista é o relançamento da obra antes publicada pela Cosac, apresentando um registo das experiências do autor que foram recolhidas durante todos os 38 anos de carreira, o que de acordo com as suas palavras não era tanto tempo assim. Com esse pensamento Umberto Eco dá o título à obra, afinal, apesar dos seus 80 anos de idade, ainda se considerava um jovem no meio literário. Modesto, não?
Eu tinha acabado de ler o Romancista como vocação do Haruki Murakami, outra ótima obra biográfica descrevendo os processos de escrita, experiências literárias e obstáculos durante esse longo — e árduo — caminho que obviamente varia de escritor para escritor, e foi uma experiência interessantíssima pôr os pontos de vistas desses dois autores lado a lado com as suas obras e literaturas completamente distintas.
A primeira coisa que percebemos ao conhecer o processo de criação do Umberto Eco é que ele era extremamente perfeccionista, tão detalhista que passava anos e anos colhendo detalhes e amadurecendo uma ideia antes de começar a colocá-la no papel. Ele não queria simplesmente escrever livros, mas sim oferecer obras ricas e intrincadas que fossem lembradas e principalmente importantes, preenchendo-as com as referências do seu vasto conhecimento histórico.
Eu nunca fui um leitor ávido de biografias ou não-ficção, mas recentemente me abri para esse gênero e confesso que estou adorando todas as obras que li até agora. Como autor, foi magnífico conhecer os pensamentos de outro escritor e os seus processos criativos; e como leitor, não existem palavras para descrever a importância de se conhecer melhor alguém que contribuiu tanto para a literatura como o Umberto Eco.