“Devoradores de Estrelas” é um livro de hard sci-fi lançado em 2021, cujo sucesso tem me impressionado bastante por ter furado a bolha dos fãs do gênero e atingido o mainstream, culminando em um filme lançado em 2026 que arrecadou mais de 650 milhões de dólares. Bem impressionante!
É gratificante ver uma obra do estilo de que tanto gosto indo tão bem, tanto como livro quanto como filme. A quantidade de leitores dele aqui no Skoob está bem grande, e a obra vive arrancando elogios de leitores — muitos deles tendo neste livro sua primeira experiência com ficção científica. Por mim, mais obras como essa poderiam surgir, para trazer cada vez mais novos leitores para o mundo maravilhoso da ficção científica.
E não é difícil entender esse hype todo. Primeiro, vem o sucesso anterior de Andy Weir com “Perdido em Marte”, outro livro que também virou filme. Em segundo lugar, a forma como Weir escreve é convidativa: protagonista piadista, uma criatura alienígena fofinha, inúmeras referências pop ao longo do texto e uma bonita mensagem sobre “o poder da amizade” para arrematar tudo. Acho que o autor foi muito esperto ao usar esse tipo de estrutura cativante - ele conseguiu chegar a um público enorme. Mas, infelizmente, eu não faço parte dele. Eu não sou o público-alvo deste livro.
Sabe aquela história de que “nem tudo que eu gosto é bom, e nem tudo que é bom eu gosto”? Bom, é mais ou menos isso o que acontece aqui. Weir escreve muito bem, não há discussão sobre isso, mas o tom leve que o autor usa para retratar o iminente fim da raça humana definitivamente não me agradou.
Pensem: o Sol, a estrela da qual nosso planetinha depende, está perdendo sua força, ficando mais frio. A previsão é de que, em poucos anos, a sociedade humana entre em colapso, afunde cada vez mais na barbárie por escassez de recursos e acabe de forma lenta e terrível. Mas, em nenhum momento, a narrativa transmite toda essa gravidade. Ao contrário: o protagonista, Ryland Grace, é um piadista descolado; o texto se preocupa muito em fazer referências à cultura pop e exibir os conhecimentos científicos do autor; e, em determinado momento, Grace está simplesmente mais interessado no alienígena bonitinho que fala por meio de notas musicais, faz piadas com ele e constrói uma grande e bonita amizade.
O incômodo a respeito da quantidade exorbitante de descrições técnicas aparece com força nas cenas de maior tensão, especialmente no acidente da nave. Ali, a quantidade de explicações sobre força centrífuga, raio, gravidade artificial e procedimentos técnicos acaba esfriando a emoção. Não é um problema de haver ciência no texto; hard sci-fi precisa dela. O problema é o momento em que ela entra. Em autores como Poul Anderson, em Tau Zero, a descrição científica muitas vezes amplia a sensação de perigo e assombro. Em Weir, às vezes, ela interrompe o clímax para transformá-lo em demonstração de física.
Entendem? Não estou dizendo que foi um erro Weir escolher essa estética para o seu livro, apenas que ela não fez o meu gosto. Da minha perspectiva, é como se essa fosse uma história da Pixar. É como se um adulto precisasse contar uma história terrível a uma criança e, para não assustá-la ainda mais, fizesse isso de forma leve, lúdica e suavizada — exatamente como Grace faz com seus pequenos alunos no começo da história. Pegando o livro para reler alguns pontos que eu havia destacado para a resenha, senti como se o autor estivesse dando, naquela cena, a chave para o entendimento do livro inteiro.
Para mim, a personagem que salvou minha leitura foi Eva Stratt. Ela funciona como uma espécie de fator “anti-Grace” da narrativa, com uma postura forte, direta e prática. Enquanto lia o livro, diversas vezes senti que apenas ela estava plenamente ciente da gravidade de tudo o que estava acontecendo, enquanto Grace parecia mais preocupado com o fato de a comunidade científica tê-lo destratado e deixado de lado. Coitadinho do Grace!
E, quando é chamado à responsabilidade, ele foge e chora como uma criança. Definitivamente, eu não gostei desse personagem. Para mim, foi imensamente gratificante quando Stratt dá uma surra de realidade nele, deixando bem claro o quão covarde ele estava sendo até aquele momento.
E a forma como Stratt o manda para a missão? Ok, bonita não foi. Em outras situações, poderia ser considerada uma falta de escrúpulos da parte dela - claro que admito isso. Mas esse é um preço razoável a se pagar quando a raça humana está prestes a desaparecer do planeta de maneira terrível, certo? Eu perdoaria Eva no lugar de Grace, sem dúvida.
No fim, Grace, claro!, preferiu ficar no planeta de Rocky, uma vez que supostamente não tinha nada que o chamasse de volta à Terra - nem mesmo ajudar nos esforços de implementar a solução contra os astrofágicos, ou monitorar uma possível proliferação das taumebas e avaliar se elas talvez pudessem causar um desastre ainda maior, vai saber. Mas isso é só um detalhe! - melhor mesmo é ficar no planeta do amigo, dentro de uma redoma de vidro, vivendo sob uma gravidade que está acabando com o seu corpo bem rápido.
Mas, no fim, tal qual um episódio de “He-Man” ou de “Capitão Planeta”, aprendemos que a moral da história é que o poder da amizade é maior do que tudo — e talvez seja mesmo a maior força do universo.
Em suma, sarcasmos à parte, faço votos de que mais livros como “Devoradores de Estrelas” surjam, e que mais e mais fãs de ficção científica apareçam para que esse gênero volte a ser tão prolífico como já foi no passado. Mesmo que esses livros não me agradem, se todos forem tão bem escritos como este, eu já fico 100% satisfeito. Eu ainda tenho um monte de livros do Asimov e de autores dos anos 70 ou anteriores para ler. Não vou sofrer por falta de leituras que me agradem!